{"id":532,"date":"2016-09-10T11:26:52","date_gmt":"2016-09-10T11:26:52","guid":{"rendered":"http:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/?p=532"},"modified":"2023-04-13T14:31:20","modified_gmt":"2023-04-13T14:31:20","slug":"funcao-inferior-nos-contos-de-fadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/funcao-inferior-nos-contos-de-fadas\/","title":{"rendered":"A Fun\u00e7\u00e3o inferior nos contos de fadas"},"content":{"rendered":"<p>Na obra Tipos Psicol\u00f3gicos, Carl Jung nos forneceu um sistema de orienta\u00e7\u00e3o do ego que se baseia em sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo exterior e interior por meio das fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas (sensa\u00e7\u00e3o, intui\u00e7\u00e3o, pensamento e sentimento) e das atitudes (introvertida e extrovertida).<\/p>\n<p>As fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas foram divididas em dois grupos: racionais (pensamento e sentimento) e irracionais (sensa\u00e7\u00e3o e intui\u00e7\u00e3o). As fun\u00e7\u00f5es racionais, Jung classificou como julgativas e as irracionais fun\u00e7\u00f5es apreciativas.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s em nosso desenvolvimento ps\u00edquico acabamos por desenvolver uma fun\u00e7\u00e3o, que passa a ser ent\u00e3o, usada com maior facilidade pelo ego em seu manejo com o mundo. A essa fun\u00e7\u00e3o Jung deu o nome de fun\u00e7\u00e3o principal.<\/p>\n<p>Mas esse desenvolvimento da fun\u00e7\u00e3o superior se d\u00e1 \u00e0 custa da repress\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o inferior, ou seja, aquela que \u00e9 oposta \u00e0 superior. Assim ocorre com todos n\u00f3s, isso faz parte do nosso desenvolvimento como seres humanos. No entanto, em determinado momento da vida devemos olhar para ela e nos debru\u00e7ar sobre qual o ensinamento ela tem para nos trazer.<\/p>\n<p>Na forma\u00e7\u00e3o da personalidade humana existe uma imensa gama de possibilidades de desenvolvimento, mas em geral desenvolvemos e formamos aquelas possibilidades que mais se adaptam ao meio ambiente. \u00c9 uma forma arcaica de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 um ser greg\u00e1rio e que precisa se sentir pertencente e aceito.<\/p>\n<p>Por exemplo, algu\u00e9m que possui uma boa intelig\u00eancia e que vive em um lar onde o racional e o estudo s\u00e3o valorizados ir\u00e1 desenvolver ainda mais seu intelecto. E mesmo que essa n\u00e3o seja sua tend\u00eancia natural, ir\u00e1 desenvolver o intelecto para estar em conson\u00e2ncia com esse ambiente. No entanto, a fun\u00e7\u00e3o oposta, o sentimento, ficar\u00e1 indiferenciada e arcaica. Essa pessoa excluir\u00e1 as tend\u00eancias sentimentais de suas escolhas.<\/p>\n<p>Sobre a problem\u00e1tica da fun\u00e7\u00e3o inferior falei com mais detalhes em um texto anterior.<\/p>\n<p>Aqui, nesse texto, quero comentar como a fun\u00e7\u00e3o inferior aparece nos contos de fadas e como os mesmos mostram caminhos para a aceita\u00e7\u00e3o e solu\u00e7\u00e3o dessa parte da personalidade que fica encoberta pelo medo.<\/p>\n<p>Alguns contos de fadas como As tr\u00eas plumas dos Grimm e A\u00a0Czarina Virgem, o her\u00f3i \u00e9 uma figura desajeitada, \u00e9 o filho mais jovem e desprezado pelo pai e irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Esses her\u00f3is desajeitados e inadaptados correspondem \u00e0 fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica menos desenvolvida, ou seja, a inferior.<\/p>\n<p>Outros contos onde o her\u00f3i parece n\u00e3o estar adaptado a realidade do local, ou que n\u00e3o faz parte da corte e \u00e9 algu\u00e9m do povo e pobre, tamb\u00e9m mostram de forma menos clara a fun\u00e7\u00e3o inferior.<\/p>\n<p>No conto de fadas Cinderela, tamb\u00e9m vemos a hero\u00edna como um s\u00edmbolo da fun\u00e7\u00e3o inferior. A madrasta representa a fun\u00e7\u00e3o superior j\u00e1 desgastada e em mau funcionamento e as duas irm\u00e3s, como fun\u00e7\u00f5es auxiliares da consci\u00eancia, j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a para auxiliar o ego.<\/p>\n<p>A estrutura ent\u00e3o que se forma no conto \u00e9 a seguinte: dois filhos s\u00e3o inteligentes e amados representando o fundamento b\u00e1sico para a constru\u00e7\u00e3o das duas fun\u00e7\u00f5es auxiliares no ser humano \u2014 e o filho mais novo, ou enteado, seria o Tolo representando a base da constru\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o inferior. Contudo o Tolo n\u00e3o \u00e9 somente isso, ele \u00e9 tamb\u00e9m o her\u00f3i, e toda a hist\u00f3ria est\u00e1 centrada nele (Von Franz, 2005).<\/p>\n<p>O her\u00f3i ou a hero\u00edna nessa estrutura \u00e9 o mais novo(a) ou mais fraco(a), sendo sempre desprezado.<\/p>\n<p>O fato de serem her\u00f3is significa que a fun\u00e7\u00e3o inferior desprezada \u00e9 capaz de resolver problemas que a consci\u00eancia n\u00e3o d\u00e1 mais conta, liberando energia e um novo valor para a consci\u00eancia do ego.<\/p>\n<p>Em termos pr\u00e1ticos essa \u00e9 aquela situa\u00e7\u00e3o, onde ficamos paralisados e n\u00e3o vemos solu\u00e7\u00e3o para o nosso problema e tudo o que fazemos conscientemente d\u00e1 errado. Os meios costumeiros e normais e agir n\u00e3o funcionam mais e nos sentimos impotentes e devemos lan\u00e7ar m\u00e3o de uma atitude inusitada e estranha. \u00c9 aquele momento em que fazemos justamente aquilo que dissemos que nunca ir\u00edamos fazer.<\/p>\n<p>Temos que solucionar um problema com o nosso lado mais fraco e a vida acaba exigindo de n\u00f3s uma nova atitude e forma de viver.<\/p>\n<p>Um intuitivo, que possui dificuldade em lidar com o lado pr\u00e1tico da vida e que vive no mundo das possibilidades, ter\u00e1 que olhar para o aqui e agora e assumir compromissos com a dura realidade.<\/p>\n<p>Os contos de fadas podem ent\u00e3o nos mostrar como transformar essa parte mais fraca, inadaptada e desprezada em her\u00f3i ou hero\u00edna.<\/p>\n<p>Geralmente os dois irm\u00e3os mais amados e mais h\u00e1beis n\u00e3o assumem a tarefa ou n\u00e3o conseguem realiz\u00e1-la de forma consistente. Isso significa que quando precisamos desenvolver nossa fun\u00e7\u00e3o inferior as fun\u00e7\u00f5es auxiliares s\u00f3 s\u00e3o capazes de alcan\u00e7ar o simples, trivial e habitual. Elas n\u00e3o s\u00e3o capazes de trazer o verdadeiro valor e o extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para isso precisamos ousar, transgredir, encontrar o inusitado em nossas vidas.<\/p>\n<p>\u00c9 importante tamb\u00e9m citar que alguns contos de fadas com essa estrutura deixam em aberto qual das quatro fun\u00e7\u00f5es representa o her\u00f3i ou a hero\u00edna e qual das atitudes vemos ali, se extrovertida ou introvertida. Isso significa que se trata de uma f\u00f4rma que ser\u00e1 preenchida com a vida humana.<\/p>\n<p>Cinderela por exemplo, se mant\u00e9m introvertida, mas quando vai ao baile possui caracter\u00edsticas extrovertidas, n\u00e3o deixando de forma clara qual a sua atitude mais habitual.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/2016-09-10-Cinderela.jpg\" data-rel=\"penci-gallery-image-content\" ><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-533\" src=\"http:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/2016-09-10-Cinderela-202x300.jpg\" alt=\"2016-09-10-cinderela\" width=\"202\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/2016-09-10-Cinderela-202x300.jpg 202w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/2016-09-10-Cinderela.jpg 440w\" sizes=\"auto, (max-width: 202px) 100vw, 202px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O conto ent\u00e3o s\u00f3 documenta a quest\u00e3o fundamental e essencial do desenvolvimento da fun\u00e7\u00e3o inferior.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o \u00e9 uma regra, alguns mostram de forma mais clara qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o representada pelo her\u00f3i.<\/p>\n<p>O que \u00e9 mais importante compreender ent\u00e3o, \u00e9 que o conto de fadas, traz uma infinita escala de possibilidades e vem sempre dizer algo ao homem, tocando profundamente em sua alma.<\/p>\n<p>Conhecer o seu conto favorito, ou aquele com que se identifica mais pode colocar em movimento aquilo que ainda n\u00e3o pode se expressar.<\/p>\n<p>Em momentos em que nos encontramos na encruzilhada e que n\u00e3o conseguimos solucionar problemas de forma costumeira, o conto pode nos auxiliar a trazer o inusitado e o diferente. Ele nos ensina que o que estamos desprezando em n\u00f3s \u00e9 justamente aquilo que precisamos para modificar a nossa vida.<\/p>\n<p>Texto: Hellen Reis Mour\u00e3o.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<br \/>\nDIECKMANN, H. Contos de fadas vividos. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1986.<br \/>\nVON FRANZ, M. L. A interpreta\u00e7\u00e3o dos contos de fada. 5 ed. Paulus. S\u00e3o Paulo: 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na obra Tipos Psicol\u00f3gicos, Carl Jung nos forneceu um sistema de orienta\u00e7\u00e3o do ego que se baseia em sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo exterior e interior por meio das fun\u00e7\u00f5es&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":534,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[43,17,56,141,20],"class_list":["post-532","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-psicologia-analitica","tag-carl-gustav-jung","tag-carl-jung","tag-contos-de-fadas","tag-funcoes-psiquicas","tag-tipos-psicologicos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/532","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=532"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/532\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":535,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/532\/revisions\/535"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/534"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}