{"id":644,"date":"2017-08-25T00:02:05","date_gmt":"2017-08-25T00:02:05","guid":{"rendered":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/?p=644"},"modified":"2023-04-13T14:30:44","modified_gmt":"2023-04-13T14:30:44","slug":"traumas-coletivos-e-complexos-culturais-no-filme-o-mordomo-da-casa-branca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/traumas-coletivos-e-complexos-culturais-no-filme-o-mordomo-da-casa-branca\/","title":{"rendered":"TRAUMAS COLETIVOS E COMPLEXOS CULTURAIS NO FILME \u2013 \u201cO MORDOMO DA CASA BRANCA\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Weisstub e Galili-Weisstub (2004) exploram a experi\u00eancia do trauma e sua influ\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o de complexos, tanto na psique do indiv\u00edduo quanto na psique do grupo.<\/p>\n<p>A elucida\u00e7\u00e3o da intera\u00e7\u00e3o din\u00e2mica do complexo, na psique individual e do grupo, configura-se como tarefa que requer a circum-ambula\u00e7\u00e3o em torno do tema. Para os autores, os traumas externos provocam danos para o mundo interior. O trauma de um grupo, repetido por v\u00e1rias vezes, resulta na cria\u00e7\u00e3o de complexos culturais que, muitas vezes, se tornam o alimento para mais eventos traum\u00e1ticos. Esse c\u00edrculo vicioso de traumas leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de complexos que refor\u00e7am a precipita\u00e7\u00e3o do complexo em efeito cascata, promovendo efeitos destrutivos no indiv\u00edduo e no grupo.<\/p>\n<p>O conflito at\u00e9 hoje existente entre brancos e negros, nos Estados Unidos, \u00e9 um exemplo de um ciclo tr\u00e1gico que gera traumas coletivos e complexos culturais explicitados no filme O Mordomo da Casa Branca. O pequeno Cecil Gaines causou indiretamente a morte do pai, nos anos 1920, e viu sua m\u00e3e enlouquecer. Da\u00ed em diante, mudou sua maneira de agir, como se tivesse entendido o mundo dos brancos: \u201cSobrevivemos nele\u201d, dizia o pai. Mais tarde, j\u00e1 dominando a \u201carte\u201d de ser invis\u00edvel, de se antecipar ao que \u201celes\u201d querem e, principalmente, ter duas caras, o jovem \u2013 o qual aprendeu a servir na \u201ccasa grande\u201d \u2013 torna-se o mordomo oficial do presidente dos Estados Unidos e fica na Casa Branca, durante mais de 30 anos.<\/p>\n<p>Os pais, adultos que passaram por traumas quando crian\u00e7as, como foi o caso de Gaines, que assistiu \u00e0 morte do pai e ao estupro da m\u00e3e, n\u00e3o s\u00e3o capazes de oferecer apoio aos filhos, pois os pr\u00f3prios se encontram feridos. Essa descoberta levanta quest\u00f5es sobre a falta de um sentido b\u00e1sico de seguran\u00e7a e sobre a percep\u00e7\u00e3o dos pais como impotentes (MARSALHA, 2003 apud WEISSTUB; GALILI-WEISSTUB, 2004). Gaines n\u00e3o conseguiu apoiar a esposa Eugene e seu filho Louis, o qual n\u00e3o aceita a passividade do pai diante dos maus tratos recebidos pelos negros, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em seus estudos de 2003, Marsalha conclui que o desejo da crian\u00e7a \u00e9 um desejo coletivo nacional (WEISSTUB; GALILI-WEISSTUB, 2004). O significado disso \u00e9 que h\u00e1 uma perda de fronteira do indiv\u00edduo, que se mistura com o coletivo. Os complexos culturais muitas vezes se superp\u00f5em aos interesses pessoais. Podemos considerar esse fen\u00f4meno como desistir de si pr\u00f3prio em nome da causa do grupo, conforme visto no filme, quando o filho de Gaines, Louis, desiste da faculdade e passa a pertencer ao grupo das Panteras Negras.<\/p>\n<p>Os complexos culturais se expressam na vida do grupo e provocam os conflitos do grupo, como o terrorismo ou a guerra, onde o agente traumatog\u00eanico \u00e9 um inimigo cultural identificado. As tr\u00eas defesas evocadas, al\u00e9m das pessoais, constituem igualmente parte do complexo cultural, experimentado n\u00e3o s\u00f3 pelas v\u00edtimas, mas por pessoas atacadas do grupo.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, Singer e Kaplinsky (2010) identificam tr\u00eas componentes ativados, quando o esp\u00edrito grupo \u00e9 amea\u00e7ado: les\u00e3o traum\u00e1tica para uma pessoa vulner\u00e1vel, grupo de pessoas, lugar ou valor que simboliza o esp\u00edrito do grupo, medo da aniquila\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito pessoal e do grupo por um estrangeiro e surgimento de uma vingan\u00e7a protetora, a qual se configura como defesa do esp\u00edrito do grupo. No filme, esses fatores est\u00e3o presentes, por exemplo, no caso da violenta sequ\u00eancia de agress\u00f5es que os adolescentes negros sofrem, na lanchonete, nas lutas, pris\u00f5es e, principalmente, no \u00f4nibus, quando s\u00e3o atacados pelos Ku Klux Klan.<\/p>\n<p>A profunda vulnerabilidade do agredido pode ser explicada pelos escritos de Winnicott, de 1960, associada ao desenvolvimento do um \u201cfalso self\u201d e o que Newmann, em 1990, classificou como ego de ang\u00fastia. Os mecanismos de defesa do ego desabam ap\u00f3s o trauma terr\u00edvel, que resulta em sentimento de desamparo (WEISSTUB; GALILI-WEISSTUB, 2004).<\/p>\n<p>Na verdade, o aspecto preexistente de um severo superego punitivo pode explicar seus sentimentos de culpa e vergonha e sua tentativa de superar a fraqueza, mediante a identifica\u00e7\u00e3o com o agressor. Tamb\u00e9m se pode perceber esses elementos no comportamento de Gaines, o qual, ap\u00f3s todos os traumas sofridos, ainda presta servi\u00e7o durante sete mandatos presidenciais na Casa Branca, entre 1957 e 1986. Enquanto se torna testemunha ocular da hist\u00f3ria e das negocia\u00e7\u00f5es de bastidor do Sal\u00e3o Oval, em um momento em que o movimento de direitos civis desabrocha, sua dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho alimenta tens\u00f5es em casa, afastando sua esposa e criando conflitos com seu filho mais velho, opositor do sistema.<\/p>\n<p>Concluem Singer e Kaplinsky (2010) que discutir complexos culturais e reconhecer seus efeitos, nos indiv\u00edduos e no grupo, permitem uma compreens\u00e3o mais profunda da vida ps\u00edquica de um grupo. Eles fornecem uma chave para lidar com aspectos destrutivos da psique coletiva. A an\u00e1lise dos complexos culturais, quando aplicada, pode contribuir significativamente para a compreens\u00e3o de conflitos nos grupos.<\/p>\n<p>Como discutido anteriormente, Joe Henderson, em 1947, expandiu o conceito de inconsciente do complexo cultural, a partir da teoria dos complexos de Jung ([1934], 2011c). Resumindo assim, se o inconsciente pessoal pode ser entendido atrav\u00e9s dos complexos pessoais, o inconsciente cultural pode ser compreendido por meio dos complexos culturais. Tanto o complexo pessoal quanto o cultural surgem de aspectos arquet\u00edpicos que a psique traz, atrav\u00e9s de afetos, imagem, estrutura e dinamismo da vida individual e grupal \u2013 enquanto Gaines passa a vida a servir seus patr\u00f5es brancos, o filho Louis engaja-se na luta pelos direitos civis dos negros. As situa\u00e7\u00f5es parecem se suceder s\u00f3 para refor\u00e7ar didaticamente esse contraponto entre dois estere\u00f3tipos, o do negro submisso e o do engajado.<\/p>\n<p>Em decorr\u00eancia, podemos encontrar, na hist\u00f3ria, uma variedade de representa\u00e7\u00f5es de traumas grupais como, por exemplo, o genoc\u00eddio, o racismo etc. Al\u00e9m disso, podemos tamb\u00e9m adicionar traumas produzidos por pobreza, exclus\u00e3o social e degrada\u00e7\u00e3o social de milh\u00f5es de pessoas que sofrem pela sua classe social e a cor da sua pele (KIMBLES, 2006.)<\/p>\n<p>Os complexos culturais s\u00e3o manifestados na hist\u00f3ria cultural como uma est\u00f3ria e ideologia fundadas em experi\u00eancias particulares e perspectivas ou significados de eventos atribu\u00eddos (KIMBLES, 2006).<\/p>\n<p>Assim, no filme, tem-se uma longa viagem pela luta dos negros para serem tratados e terem os mesmos direitos dos brancos, indo desde a \u00e9poca da escravid\u00e3o nos campos at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Retrata as vis\u00f5es de Gaines e seu filho Louis, um jovem que nunca aceitou a condi\u00e7\u00e3o social imposta para pessoas negras e que luta por direitos iguais, ao contr\u00e1rio de seu pai, que cresceu e acredita que precisa aceitar tudo que \u00e9 imposto pelos brancos e agradec\u00ea-los por o deixarem viver em seu mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>An\u00e1lise: Socorro do Prado<br \/>\nPsic\u00f3loga com P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicoterapia Anal\u00edtica Junguiana pelo IJBA, Licenciada em Letras Vern\u00e1culas pela UCSAL e Mestre em Psicologia Cl\u00ednica pela PUC-SP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Weisstub e Galili-Weisstub (2004) exploram a experi\u00eancia do trauma e sua influ\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o de complexos, tanto na psique do indiv\u00edduo quanto na psique do grupo. 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