{"id":693,"date":"2018-02-15T02:58:25","date_gmt":"2018-02-15T02:58:25","guid":{"rendered":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/?p=693"},"modified":"2023-04-13T14:30:29","modified_gmt":"2023-04-13T14:30:29","slug":"anne-frank-a-dinamica-psiquica-de-uma-adolescente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/anne-frank-a-dinamica-psiquica-de-uma-adolescente\/","title":{"rendered":"ANNE FRANK: A DIN\u00c2MICA PS\u00cdQUICA DE UMA ADOLESCENTE"},"content":{"rendered":"<p>A autora do Di\u00e1rio em an\u00e1lise, uma menina de seus 14 anos, denota ser, em geral, e de in\u00edcio, intolerante, sem autocr\u00edtica, dedicada a discuss\u00f5es acaloradas com membros de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia e outros, todos refugiados dos nazistas, na Holanda, durante a II Guerra Mundial. O Di\u00e1rio foi escrito no per\u00edodo de 1942 a 1944, e descreve toda a tens\u00e3o que a fam\u00edlia Frank sofreu durante a guerra. Ao fim de dois anos de sil\u00eancio e medo aterrorizante, eles foram descobertos e deportados para campos de concentra\u00e7\u00e3o. Anne morre em um destes.<\/p>\n<p>\u201cO Di\u00e1rio de Anne Frank\u201d (ODAF), al\u00e9m de ser precioso documento hist\u00f3rico, \u00e9 tamb\u00e9m uma \u00f3tima express\u00e3o do desenvolvimento psicol\u00f3gico de uma adolescente, de sua fase infantil para uma vida bem mais madura. A autora exprime sua evolu\u00e7\u00e3o em suas confiss\u00f5es escritas, nos parcos relatos de sonhos e vis\u00f5es, e nas suas fantasias. \u00c9 preciso atentar ao fato de que essa din\u00e2mica psicol\u00f3gica progressiva at\u00e9 a Anne adulta ocorre sob fortes press\u00f5es emocionais, que inclui at\u00e9 o risco de morte, o que abrevia muito a extens\u00e3o dessa transforma\u00e7\u00e3o. A inten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 fornecer uma ideia psicol\u00f3gica geral e sint\u00e9tica do contexto ps\u00edquico apresentado por Anne.<\/p>\n<p>Em seu primeiro relato, a autora dirige-se ao pr\u00f3prio Di\u00e1rio: \u201cEspero poder contar tudo a voc\u00ea, como nunca pude contar a ningu\u00e9m, e espero que voc\u00ea seja uma grande fonte de conforto e ajuda.\u201d (p. 18). Esse \u00e9 o tom que percorre toda a obra do in\u00edcio ao fim. O Di\u00e1rio \u00e9 personificado na forma de uma amiga imagin\u00e1ria, nomeada \u201cKitty\u201d, com a qual Anne se defronta continuamente. Ela \u00e9 um esfor\u00e7o de imagina\u00e7\u00e3o no sentido de personificar a imagem ideal de amiga h\u00e1 muito esperada. Kitty serve de espelho a Anne, em uma atitude totalmente receptiva, de registro do que quer que se encontre passando em sua alma. A ansiedade \u00e9 intensa: \u201cTenho vontade de escrever e uma necessidade ainda maior de desabafar tudo o que est\u00e1 preso em meu peito. [\u2026] O papel tem mais paci\u00eancia do que as pessoas.\u201d (p. 18-19). A principal motiva\u00e7\u00e3o em ter um di\u00e1rio \u00e9 a liberdade de express\u00e3o, o que n\u00e3o ocorreria com um amigo f\u00edsico. N\u00e3o \u00e9 que ela seja solit\u00e1ria, pelo contr\u00e1rio\u2026 Mas ela n\u00e3o considera a multid\u00e3o de admiradores, parentes e outros relacionamentos como \u201cverdadeiros amigos\u201d. A estes n\u00e3o consegue se obrigar a \u201cfalar nada que n\u00e3o sejam bobagens do cotidiano\u201d (p. 19), uma vez que n\u00e3o confia neles. No Di\u00e1rio n\u00e3o quer escrever\u00a0 \u201cfatos banais do jeito que a maioria faz\u201d, pois quer que ele seja sua amiga.<\/p>\n<p>De certo modo, \u00e9 como se Anne escrevesse cartas ao seu inconsciente, personificado por Kitty. Pode-se considerar essa maneira de intera\u00e7\u00e3o fantasiosa como uma forma de\u00a0<a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20190116195745\/http:\/\/apsiqueeomundo.blogspot.com.br\/2012\/10\/imaginacao-ativa-ou-terapia-com-o-sr.html\">imagina\u00e7\u00e3o ativa<\/a>, ainda que n\u00e3o de todo completa. A imagina\u00e7\u00e3o ativa \u00e9 uma t\u00e9cnica utilizada por Jung para se relacionar com o inconsciente. Ele mesmo relata em suas mem\u00f3rias que escrevia cartas a sua alma (sua\u00a0<em>anima<\/em>). Por\u00e9m, nem toda pr\u00e1tica de registro em di\u00e1rio pode ser considerada imagina\u00e7\u00e3o ativa. O principal ponto a considerar nesse sentido em ODAF \u00e9 que a autora usava de sentimento para lidar com sua figura imaginativa, de modo a consider\u00e1-la uma\u00a0<em>pessoa real<\/em>, apesar de pertencer ao mundo da fantasia. Ter a convic\u00e7\u00e3o de que o conte\u00fado da fantasia \u00e9 uma realidade, a despeito de n\u00e3o existir fisicamente, \u00e9 um dos mais importantes crit\u00e9rios a serem atendidos para se executar uma verdadeira imagina\u00e7\u00e3o ativa. E a amiga imagin\u00e1ria de Anne \u00e9 t\u00e3o real que esta interage e relata intimidades que n\u00e3o ousaria confessar a mais ningu\u00e9m. Desse modo, a autora se divide em Anne e Kitty.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-694 size-medium\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-2-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-2.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como a simbologia dos sonhos e das fantasias possui o mesmo efeito e sentido, independente de como ocorre, esse in\u00edcio do Di\u00e1rio possui um potencial mais positivo do que uma ocorr\u00eancia equivalente em sonho, como descrito na cita\u00e7\u00e3o. Anne se divide em duas de maneira consciente e tranquila, sem base em qualquer patologia mental, at\u00e9 onde se sabe. Portanto, essa fantasia com o Di\u00e1rio aponta para uma consci\u00eancia maior, como se ver\u00e1.<\/p>\n<p>Esta dicotomia entre a realidade interna e externa, entre o eu e o eu duplo expressa, no entanto, simultaneamente, a possibilidade de o sonhador alcan\u00e7ar, apesar de todo perigo, uma consci\u00eancia mais elevada. Novalis diz: \u201cNingu\u00e9m conhece a si pr\u00f3prio enquanto for apenas ele mesmo sem ser ao mesmo tempo um outro\u201d. (ANIELA JAFF\u00c9, em JUNG, 2011, p. 293)<\/p>\n<p>Isto \u00e9, precisamos de um outro para nos conhecer, para nos refletir, nos espelhar. Esse outro pode ser nosso pr\u00f3prio inconsciente, como explicado no texto \u201c<a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20190116195745\/http:\/\/apsiqueeomundo.blogspot.com.br\/2012\/10\/imaginacao-ativa-ou-terapia-com-o-sr.html\">Imagina\u00e7\u00e3o ativa ou terapia com o Sr. Inconsciente<\/a>\u201c. Isso ocorre porque, para observar o nosso pr\u00f3prio comportamento interno ou externo, precisamos nos dividir entre observador e observado.<\/p>\n<p>Depois que Anne e sua fam\u00edlia foram para o esconderijo passaram por muito sofrimento: ficaram fechados por mais de dois anos em um anexo de escrit\u00f3rio; dividiram alimento, na maior parte do tempo prec\u00e1rio, com mais quatro pessoas; n\u00e3o podiam ao menos abrir as janelas e contemplar livremente a natureza; ouviam e contemplavam evid\u00eancias de bombardeios e tiroteios pr\u00f3ximos; tendo seu alojamento arrombado por ladr\u00f5es ou visitado por pessoas estranhas, achando que eram policiais da SS; obrigaram-se a suportar o mau cheiro dos pr\u00f3prios dejetos, a sujeira e o sil\u00eancio autoimposto para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o; etc.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>sofrimento<\/strong>\u00a0\u00e9 o caminho inevit\u00e1vel que deve ser trilhado para se chegar \u00e0 consci\u00eancia, o pre\u00e7o inevit\u00e1vel da transforma\u00e7\u00e3o que buscamos. N\u00e3o h\u00e1 como escapar-lhe; n\u00f3s que tentamos fugir dele, jamais conseguiremos, e nossa infelicidade \u00e9 dupla, pois al\u00e9m de pagar o pre\u00e7o, n\u00e3o alcan\u00e7amos a transforma\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma lei terr\u00edvel e imut\u00e1vel em a\u00e7\u00e3o: s\u00f3 h\u00e1 transforma\u00e7\u00e3o quando aceitamos nosso sofrimento de maneira consciente e volunt\u00e1ria [\u2026]. (JOHNSON, 1997, p. 209-210)<\/p>\n<p>Ora, o sofrimento de todos os refugiados no anexo \u00e9 intenso e terr\u00edvel. Anne n\u00e3o tinha como escapar da aceita\u00e7\u00e3o do seu sofrimento ps\u00edquico, ainda mais com o uso constante do Di\u00e1rio. Aceita\u00e7\u00e3o no sentido do di\u00e1logo, de estar consciente dele, de fazer algo de concreto com ele. Aceita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 resigna\u00e7\u00e3o ou passividade frente ao inevit\u00e1vel. \u00c9 acolhimento, respeito e considera\u00e7\u00e3o atenciosa para com o sentimento.<\/p>\n<p>O fator sofrimento deve ser muito considerado no caso de Anne Frank e seu desenvolvimento. Psicologicamente, sofrer \u00e9 imprescind\u00edvel, pois toda solu\u00e7\u00e3o real de conflito s\u00f3 \u00e9 encontrada por meio do sofrimento intenso. Ele indica at\u00e9 que ponto somos insuport\u00e1veis a n\u00f3s mesmos. Devemos nos entender com nossos inimigos interiores e exteriores. Fazer isso \u00e9 sintetizar a nossa pr\u00f3pria totalidade, que \u00e9 o objetivo da vida. Mas para isso precisamos suportar o sofrimento, que deve ser \u201cesquentado\u201d at\u00e9 que a tens\u00e3o fique insuport\u00e1vel e os elementos opostos envolvidos no conflito se fundam dentro de n\u00f3s n\u00f3s. A felicidade e o sofrimento encontram-se t\u00e3o intimamente ligados que a felicidade vira sofrimento e o sofrimento mais intenso pode provocar uma esp\u00e9cie de sentimento sobre-humano de felicidade. Eles s\u00e3o um par de opostos imprescind\u00edvel \u00e0 vida (JUNG, 1999, p. 246 e 258). E \u00e9 exatamente isso que acontece com a adolescente, como demonstrado na seguinte passagem do Di\u00e1rio:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-695\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-3-300x266.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-3-300x266.jpg 300w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-3.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Eu costumo me sentir mal, mas nunca me desespero. Vejo nossa vida no esconderijo como uma aventura interessante, cheia de perigo e romance, e cada priva\u00e7\u00e3o. Decidi levar uma vida diferente da de outras garotas, e n\u00e3o me tornar mais tarde uma dona de casa comum. O que estou vivenciando aqui \u00e9 um bom in\u00edcio para uma vida interessante, e este \u00e9 o motivo \u2013 o \u00fanico \u2013 para eu rir do lado engra\u00e7ado dos momentos perigosos.\u00a0 Sou jovem e tenho muitas qualidades ocultas; sou jovem, forte e vivo uma grande aventura; estou no meio dela e n\u00e3o posso passar o dia inteiro reclamando porque \u00e9 imposs\u00edvel me divertir! Sou aben\u00e7oada com tantas coisas: felicidade, alegria e for\u00e7a. A cada dia me sinto amadurecendo, sinto a liberta\u00e7\u00e3o se aproximar, sinto a beleza da natureza e a bondade das pessoas ao redor. A cada dia penso em como essa aventura \u00e9 fascinante e divertida! Com tudo isso, por que deveria me desesperar? (FRANK, 2016, p. 311-312)<\/p>\n<p>Curioso \u00e9 o fato de a autora confessar isso em seu Di\u00e1rio \u00edntimo Isso denota que sua inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era agradar ou convencer ningu\u00e9m. Verdadeiramente, ela sofria, mas conseguia encontrar motiva\u00e7\u00e3o e sentido para viver, para se entusiasmar, para se sentir feliz.<\/p>\n<p>At\u00e9 certo ponto do Di\u00e1rio, percebia-se que a sexualidade de Anne ainda n\u00e3o estava definida at\u00e9 a ida para o esconderijo. Conta ela de uma vez que foi dormir na casa de uma amiga e sentiu curiosidade sobre seu corpo. Perguntou a ela se poderiam tocar os seios uma da outra, como prova de amizade, o que recusou. No entanto, teve um desejo terr\u00edvel de beij\u00e1-la e a beijou. Descreve como, ao ver uma mulher nua em um livro, entrou em \u00eaxtase. \u201c\u00c0s vezes acho que elas s\u00e3o t\u00e3o maravilhosas que tenho de lutar para conter as l\u00e1grimas.\u201d E lamenta n\u00e3o ter uma amiga naquele momento. Por essa mesma \u00e9poca ela tamb\u00e9m ficara menstruada (p. 184).<\/p>\n<p>Na puberdade as mudan\u00e7as corporais acentuam a diferencia\u00e7\u00e3o do eu atual em rela\u00e7\u00e3o ao infantil e, talvez por isso, o adolescente frequentemente imp\u00f5e-se aos demais desmedidamente. Nesse per\u00edodo ocorre o processo de \u201cnascimento ps\u00edquico\u201d e a diferencia\u00e7\u00e3o dos pais. O sujeito interioriza as limita\u00e7\u00f5es exteriores, impostas pelos pais e pela sociedade, e, uma vez tornados subjetivos, estes se op\u00f5em aos impulsos existentes (JUNG, 1991a, \u00a7756-757). Isso ocorre de maneira evidente com Anne. A autora expressa no seu di\u00e1rio sua insatisfa\u00e7\u00e3o com os pais, principalmente a m\u00e3e.<\/p>\n<p>[\u2026] mam\u00e3e, com todos os seus defeitos, \u00e9 mais dif\u00edcil de ser enfrentada. N\u00e3o sei como devo agir. N\u00e3o consigo fazer com que ela veja sua falta de aten\u00e7\u00e3o, seu sarcasmo e sua dureza de cora\u00e7\u00e3o, mas\u00a0<strong>n\u00e3o consigo assumir a culpa por tudo<\/strong>. Sou o oposto de mam\u00e3e; por isso, n\u00f3s nos desentendemos, claro. N\u00e3o quero julg\u00e1-la; n\u00e3o tenho esse direito. Simplesmente estou olhando-a como m\u00e3e.\u00a0<strong>Ela n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e3e para mim \u2013 eu tenho de ser minha pr\u00f3pria m\u00e3e<\/strong>. [\u2026] \u00c0s vezes acho que Deus est\u00e1 querendo me testar, agora e no futuro.\u00a0<strong>Vou ter que me tornar uma boa pessoa por conta pr\u00f3pria, sem ningu\u00e9m para servir de modelo<\/strong>\u00a0ou me aconselhar, mas no fim\u00a0<strong>isso vai me tornar mais forte<\/strong>\u00a0(p. 162-163). (negrito do autor do blog)<\/p>\n<p>O Eu n\u00e3o consegue se formar com uma concord\u00e2ncia perp\u00e9tua. Com o desenvolvimento pode dizer: \u201cN\u00e3o, eu n\u00e3o gosto disso, gosto \u00e9 daquilo\u201d ou \u201cN\u00e3o, eu n\u00e3o sou assim, sou assado; eu sou bom, n\u00e3o sou mau\u201d. E ao fazer todas essas discrimina\u00e7\u00f5es, ele cria a sombra, o recipiente para o que n\u00e3o \u00e9 (EDINGER, 2004, p. 24). Na adolesc\u00eancia, ao lado dos conte\u00fados do eu surge uma segunda s\u00e9rie, um novo complexo com papel e fun\u00e7\u00e3o semelhantes aos do eu, o qual, em certos casos, pode assumir o comando no lugar do primeiro. Essa \u201csegunda s\u00e9rie\u201d\u00a0 seriam as associa\u00e7\u00f5es em torno da personalidade futura da crian\u00e7a. Ora, isso \u00e9 divis\u00e3o interior, um problema para o indiv\u00edduo. Por isso a adolesc\u00eancia \u00e9 chamada de \u201canos dif\u00edceis\u201d (JUNG, 1991a, \u00a7756-757). Essa \u201csegunda s\u00e9rie\u201d possui pap\u00e9is \u201csemelhantes ao do eu\u201d. \u00c9 como se o adolescente tivesse duas identidades internas diferentes, e que qualquer uma delas pode assumir a dire\u00e7\u00e3o da vida consciente, dependendo da situa\u00e7\u00e3o. Uma intensa ambiguidade que marca a separa\u00e7\u00e3o do que faz e n\u00e3o faz parte do Eu (consci\u00eancia e inconsciente), da identidade em forma\u00e7\u00e3o (LIMA FILHO, 2002, p. 32). Esse processo fica mais percept\u00edvel no caso de Anne se analisarmos suas vis\u00f5es, sonhos e fantasias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-696 size-full\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-4.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"571\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-4.jpg 640w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-4-300x268.jpg 300w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-4-585x522.jpg 585w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Pouco antes de ela relatar o sonho que \u00e9 como uma esp\u00e9cie de ponto de muta\u00e7\u00e3o de sua personalidade, ela descreve uma vis\u00e3o que teve com uma de suas melhores amigas, Hanneli, com quem costumava ir \u00e0 escola. N\u00e3o pensava nela pelo menos h\u00e1 um ano. Segundo Anne, Hanneli era meio estranha, expansiva em casa e reservada com outras pessoas, mas dizia tudo o que pensava, e passou a admir\u00e1-la bastante (p. 16). Uma noite, quando estava caindo no sono, Hanneli de repente apareceu diante dela, desamparada, com o rosto p\u00e1lido e os olhos desesperados. \u201cEu a vi vestida de trapos, o rosto magro e desgastado. Ela me olhou com uma tristeza e com uma reprova\u00e7\u00e3o t\u00e3o grandes em seus olhos enormes, que consegui ler a mensagem neles: \u2018Ah, Anne, por que me abandonou? Me ajude, me ajude, me salve desse inferno!&#8217;\u201d (p. 171). Por\u00e9m, a autora confessa que s\u00f3 podia orar por ela, aquela que fora uma dedicada amiga. Provavelmente, durante a fuga da fam\u00edlia, deve ter parecido que Anne estava tentando afast\u00e1-la, e a\u00ed ela deve ter se sentido mal. Anne sentia culpa por ter sido escolhida para viver enquanto a amiga provavelmente iria morrer.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois Hanneli apareceu de novo, juntamente com a av\u00f3 materna falecida. Esta teve uma doen\u00e7a terminal, mas a guardou em segredo at\u00e9 morrer. Anne a descreve como doce, gentil e leal, que se interessava por tudo o que dizia respeito \u00e0 sua fam\u00edlia. Nunca a decepcionou. Sempre defendeu a neta, mesmo se se comportasse mal. Neste ponto a autora imagina como ela deve ter se sentido solit\u00e1ria, apesar da presen\u00e7a dos familiares (p. 178s).<\/p>\n<p>Os dois eventos acima, com a amiga e a av\u00f3, marcam a manifesta\u00e7\u00e3o do Si-mesmo de Anne, o seu n\u00ba 2, a personalidade que vai florescer e se expressar mais totalmente at\u00e9 a v\u00e9spera de sua pris\u00e3o. As duas figuras de alguma forma sintetizam o que a adolescente iria se tornar mais tarde, isto \u00e9, a segunda s\u00e9rie de associa\u00e7\u00f5es da personalidade futura. Apesar de a adolescente afirmar que o sonho j\u00e1 citado marca sua mudan\u00e7a de personalidade, na verdade esta mudan\u00e7a vem se preparando h\u00e1 mais tempo, o que fica evidente nos sonhos\/vis\u00f5es expostos. Essa fase \u00e9 t\u00edpica do processo de adolesc\u00eancia. As duas figuras parecem se complementar: a amiga, um aspecto mais sombrio, expressa quem Anne ir\u00e1 se tornar \u2013 a meta inconsciente do Si-mesmo; a av\u00f3 parece ser uma esp\u00e9cie de guia, de seguran\u00e7a, para que o percurso da adolescente em dire\u00e7\u00e3o ao fim a que se destina (Hanneli) seja garantido e o mais confort\u00e1vel poss\u00edvel. Parece oferecer o suporte de autoconfian\u00e7a e autoestima necess\u00e1rio ao eu da neta. As duas figuras aparecem com um poder de atra\u00e7\u00e3o \u00e0 aten\u00e7\u00e3o de Anne quase irresist\u00edvel. Esse \u201cpoder\u201d deriva, antes de tudo, de as figuras possu\u00edrem um aspecto espiritual, do outro mundo. Pode-se dizer que a figura de Hanneli, associada a v\u00e1rios sentimentos opostos na adolescente, chega a assombrar a amiga. Por esses motivos, essas imagens podem ser apreciadas como personalidades mana. A passagem que segue acrescenta elementos muito\u00a0esclarecedores aos sonhos aludidos e, por isso, \u00e9 reproduzida quase por inteiro.<\/p>\n<p>Mana \u00e9 uma palavra derivada da antropologia [\u2026]; \u00e9 pertinente ao extraordin\u00e1rio e irresist\u00edvel poder sobrenatural que emana de certos indiv\u00edduos, objetos, a\u00e7\u00f5es e eventos, como tamb\u00e9m de habitantes do mundo do esp\u00edrito. Seu equivalente moderno \u00e9 \u201ccarisma\u201d. Mana sugere a presen\u00e7a de uma for\u00e7a avassaladora, uma fonte primeva de crescimento ou cura m\u00e1gica que equivale a um conceito primitivo de energia ps\u00edquica. Mana pode atrair ou repelir, descarregar destrui\u00e7\u00e3o ou curar, confrontando o ego com uma for\u00e7a supra-ordenada. [\u2026] \u00c9 um poder quase divino que se prende ao m\u00e1gico, mediador, padre, m\u00e9dico, trapaceiro, santo ou tolo sagrado \u2013 a qualquer um que participa do mundo do esp\u00edrito o suficiente para conduzir ou irradiar sua energia. [\u2026] As personalidades mana aparecem sempre que o ego conscientemente confronta-se com o Self. V\u00ea-las como meras imagos de pai ou m\u00e3e\u00a0<strong>[a av\u00f3, por exemplo \u2013\u00a0<em>acr\u00e9scimo meu<\/em>]<\/strong> \u00e9 reduzi-las a um \u201cn\u00e3o mais que\u201d ou \u201cnada sen\u00e3o\u201d, de acordo com Jung. A personalidade mana, como uma imagem ideal e incorrupt\u00edvel, \u00e9 essencial para o processo de inicia\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o qual se obt\u00e9m um renovado senso de individualidade. O perigo inerente a per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o \u00e9 que o indiv\u00edduo, contudo, se identifique com as figuras mana, e exista uma conseq\u00fcente infla\u00e7\u00e3o. (SAMUELS, 2003, \u201cpersonalidade mana\u201d).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-697\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-5-300x251.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"251\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-5-300x251.jpg 300w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-5.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Anne, como todo adolescente, passa por um processo de transi\u00e7\u00e3o, que expressa todo um simbolismo inici\u00e1tico. Apesar de o homem moderno n\u00e3o valorizar mais os ritos de passagem, isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o sejam requeridos pela psique, a qual, se n\u00e3o encontra meios exteriores facilitadores para demarcar os passos dessa transforma\u00e7\u00e3o, recorre ent\u00e3o aos sonhos. E estes, em geral, s\u00e3o depreciados como imagens\u00a0 aleat\u00f3rias sem sentido produzidas pelo c\u00e9rebro. A mo\u00e7a parece se identificar com Hanneli, como se deduz em v\u00e1rias passagens, mas ao final percebe-se claramente como seu eu se destaca do drama interno, observando e apreciando os dois principais aspectos de sua personalidade, em conflito para assumir a sua consci\u00eancia. Isso ficar\u00e1 mais claro ao final.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do adolescente \u00e9 complexa e d\u00fabia. Como crian\u00e7a, seu ego \u00e9 praticamente estabilizado, pois est\u00e1 identificado com os pais. Aos poucos cria-se outra s\u00e9rie ps\u00edquica que ser\u00e1 refor\u00e7ada pela puberdade, por meio das mudan\u00e7as corporais, como j\u00e1 visto. Com isso, ela tende progressivamente a perder a identifica\u00e7\u00e3o para com o que os pais representam. Ao mesmo tempo, o ego come\u00e7a a se destacar do Si-mesmo. Nesse momento, n\u00e3o se pode definir claramente o que \u00e9 sombra (o n\u00e3o-eu): ser\u00e3o as identifica\u00e7\u00f5es passadas \u2013 a primeira s\u00e9rie ps\u00edquica, ou a outra s\u00e9rie que aponta para o futuro, para quem ela ser\u00e1? Nessa situa\u00e7\u00e3o incerta da adolesc\u00eancia, o que \u00e9 sombra ou eu depender\u00e1 do momento ou da situa\u00e7\u00e3o. Essa determina\u00e7\u00e3o tende a se concretizar apenas enquanto ele se torna adulto e toma as pr\u00f3prias decis\u00f5es.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as corporais revigoram essa situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um processo em que diversos elementos se refor\u00e7am. Ao final dessa fase o adolescente poder\u00e1 se reafirmar na identidade assumida, e a proje\u00e7\u00e3o pode ter um grande papel. Isso porque perceber a sombra nos outros e n\u00e3o em si estimula um cont\u00ednuo esfor\u00e7o moral na forma\u00e7\u00e3o e defini\u00e7\u00e3o do eu e da sombra da crian\u00e7a. Projetar a pr\u00f3pria sombra sobre os outros ajuda a obter um retorno positivo das pessoas pr\u00f3ximas (ZWEIG e ABRAMS, 1994, p. 70). Sup\u00f5e-se, portanto, que o Eu adolescente, em atividade de definir sua pr\u00f3pria identidade, n\u00e3o se encontra firme em sua autonomia, j\u00e1 que est\u00e1 em processo de transforma\u00e7\u00e3o. Vejamos como a autora do Di\u00e1rio descreve uma dessas manifesta\u00e7\u00f5es corporais.<\/p>\n<p>Pouco depois do aparecimento da av\u00f3 e de Hanneli, Anne conta que j\u00e1 ficara menstruada tr\u00eas vezes. \u201cTenho a\u00a0 sensa\u00e7\u00e3o de que, apesar de toda a dor, do desconforto e da sujeira, sou dona de um segredo. Assim, mesmo sendo uma coisa chata, de certo modo estou sempre ansiosa pela \u00e9poca em que vou sentir esse segredo outra vez dentro de mim.\u201d Parece que a adolescente percebe sua menstrua\u00e7\u00e3o como um mist\u00e9rio pessoal, pr\u00f3prio, todo seu, que n\u00e3o pode e n\u00e3o deve ser divulgado a todos e, por isso mesmo, a demarca psicologicamente em rela\u00e7\u00e3o aos demais, no sentido de torn\u00e1-la mais aut\u00f4noma. Deste modo, a menstrua\u00e7\u00e3o serve de apoio \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do eu, da identidade da autora, assim como o conte\u00fado do seu Di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para Jung (1987, p. 295-297) a melhor maneira de algu\u00e9m proteger a pr\u00f3pria identidade, de\u00a0 n\u00e3o confundi-la com os outros, \u00e9 a posse de um segredo que queira ou deva guardar. Isso ocorre tamb\u00e9m com o in\u00edcio de qualquer sociedade: mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 um segredo, inventam-se ou arranjam-se segredos conhecidos ou compreendidos somente pelos iniciados. A necessidade de cercar-se de mist\u00e9rio \u00e9 de import\u00e2ncia vital no est\u00e1gio primitivo, j\u00e1 que o segredo compartilhado \u00e9 o \u201ccimento\u201d da coes\u00e3o do grupo. No indiv\u00edduo, o segredo em rela\u00e7\u00e3o aos outros representa uma compensa\u00e7\u00e3o fortalecedora da coes\u00e3o ps\u00edquica da identidade, a qual submerge e se dispersa, com reca\u00eddas sucessivas na identifica\u00e7\u00e3o com as outras pessoas. A busca da conscientiza\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias particularidades \u00e9 a meta. \u201cS\u00f3 um segredo que n\u00e3o se pode trair, isto \u00e9, um segredo que nos inspira medo ou que n\u00e3o poder\u00edamos formular conceitualmente (e que, por isso, pertence aparentemente \u00e0 categoria das \u2018loucuras\u2019), pode impedir a regress\u00e3o inevit\u00e1vel ao coletivo.\u201d A necessidade de um segredo muitas vezes \u00e9 t\u00e3o grande que provoca o aparecimento de ideias e a\u00e7\u00f5es de cuja responsabilidade \u00e9 quase imposs\u00edvel se suportar. N\u00e3o \u00e9 meramente um capricho ou vaidade, mas uma cruel necessidade, inexplic\u00e1vel para a pr\u00f3pria pessoa, que \u00e9 como um destino invenc\u00edvel que mostra a exist\u00eancia de elementos estranhos em seu \u00edntimo, muito mais poderosos, dos quais ela se achava senhora.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-698 size-full\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-6.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"322\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-6.jpg 400w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-6-300x242.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>A menstrua\u00e7\u00e3o em segredo tamb\u00e9m \u00e9 interessante do ponto de vista iniciat\u00f3rio. As sociedades antigas que aplicavam ritos de passagem com a primeira menstrua\u00e7\u00e3o afastavam a jovem do seu mundo familiar. Ela era isolada e separada da comunidade, em uma cabana especial na selva ou num canto escuro da habita\u00e7\u00e3o. Trazia um vestido especial ou uma cor espec\u00edfica reservada a ela. Tinha que se manter em certa posi\u00e7\u00e3o muito inc\u00f4moda e evitar o sol ou ser tocada por qualquer pessoa (ELIADE, 1992, p. 93). A B\u00edblia traz diversas prescri\u00e7\u00f5es rituais de purifica\u00e7\u00e3o, inclusive referente \u00e0 menstrua\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>19 Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue e que seja fluxo de sangue do seu corpo, permanecer\u00e1 durante sete dias na impureza das suas regras. Quem a tocar ficar\u00e1 impuro at\u00e9 \u00e0 tarde. 20 Toda cama sobre a qual se deitar com o seu fluxo ficar\u00e1 impura; todo m\u00f3vel sobre o qual se assentar ficar\u00e1 impuro. 21 Todo aquele que tocar o leito dela dever\u00e1 lavar suas vestes, banhar-se em \u00e1gua e ficar\u00e1 impuro at\u00e9 \u00e0 tarde. (Lev\u00eddico, 12)<\/p>\n<p>De certo modo, ao entender os fluxos corporais humanos, a\u00ed inclu\u00eddo o esperma, como impurezas espirituais, os ensinamentos hebreus estimulavam o isolamento das pessoas das quais derivavam esses fluidos sexuais at\u00e9 que houvesse seu estancamento ou passasse certo per\u00edodo de tempo. As sociedades antigas, referidas por Eliade (1992) anteriormente, restringiam o isolamento \u00e0 primeira menstrua\u00e7\u00e3o. Percebe-se como esses fluxos sexuais s\u00e3o particularmente tabu. Todo cuidado \u00e9 pouco no contato com eles.<\/p>\n<p>Ao adotar o segredo para esse assunto, Anne recorria ao instintivamente ao isolamento ritual do mundo familiar. Outros elementos ela j\u00e1 vivenciava devido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de refugiada: o esconderijo do anexo e a evita\u00e7\u00e3o do contato com o sol. Assim, o ambiente colaborou e, muito provavelmente de maneira instintiva, ela recorreu ao segredo como forma de segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas suas mudan\u00e7as se estendem tamb\u00e9m ao relacionamento com outras pessoas. Sua atra\u00e7\u00e3o afetiva por outros homens se acentua. Anteriormente, por exemplo, Anne n\u00e3o admirava o filho de 17 anos dos Van Daan, fam\u00edlia que convivia escondida com a sua, em quase nenhum aspecto. Ela achava Peter, \u201csua alteza\u201d, um rapaz hipersens\u00edvel, pregui\u00e7oso, que mal demonstra que est\u00e1 presente e hipocondr\u00edaco. Em outro momento, a dupla se fantasia e faz uma apresenta\u00e7\u00e3o c\u00f4mica, divertindo os refugiados. Posteriormente, ela se deita em sua cama e o expulsa de l\u00e1, deixando-o furioso, achando que ele poderia ter sido mais atencioso, j\u00e1 que dera uma ma\u00e7\u00e3 a ele.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, devido a uma necessidade tremenda, a adolescente decide conversar com Peter, e come\u00e7a a frequentar seu quarto, dando sugest\u00f5es para resolver suas palavras cruzadas. \u201cTive um sentimento maravilhoso quando olhei em seus olhos azul-escuros e vi como ele ficara retra\u00eddo com minha visita inesperada. Dava para ler seus pensamentos mais \u00edntimos, e vi em seu rosto um ar de desamparo e inseguran\u00e7a quanto ao modo de se comportar, e, ao mesmo tempo, tive um vislumbre de consci\u00eancia da sua masculinidade. [\u2026] Naquela noite, deitei-me na cama e chorei at\u00e9 me acabar, ao mesmo tempo em que procurava ter certeza de que ningu\u00e9m me ouvia. A ideia de precisar pedir favores a Peter era simplesmente revoltante. [\u2026] N\u00e3o pense que estou apaixonada por Peter, porque n\u00e3o estou. Se os Van Daan tivessem uma filha, e n\u00e3o um filho, eu tentaria ficar amiga dela.\u201d (p. 185-186). Bem, se Anne\u00a0 n\u00e3o estava apaixonada, com certeza tinha em Peter um ref\u00fagio de sua solid\u00e3o. Certamente projetava nele uma necessidade interna antes esquecida\u2026<\/p>\n<p>Neste ponto Anne tem um sonho e os textos do Di\u00e1rio mudam psicologicamente. Para fins de estudo psicol\u00f3gico, o Di\u00e1rio pode ser dividido em duas partes: antes e depois deste sonho que ocorre com Peter Schiff, a quem chamava de \u201cPetel\u201d. Este a namorou por uns tr\u00eas meses, at\u00e9 que ele mesmo parou com os encontros. Mas a lembran\u00e7a do amado se fixou duradouramente. Segue o sonho:<\/p>\n<p>\u201cHoje de manh\u00e3 acordei logo antes das sete, e imediatamente me lembrei do sonho que tive. Estava sentada numa cadeira, e diante de mim estava Peter\u2026 Peter Schiff. Est\u00e1vamos olhando um livro de desenhos de Mary Bos. O sonho foi t\u00e3o n\u00edtido que at\u00e9 me lembro de alguns desenhos. Mas n\u00e3o foi s\u00f3 isso \u2014 o sonho continuou. Os olhos de Peter subitamente encontraram os meus, e fiquei olhando durante muito tempo aqueles olhos castanhos aveludados. Ent\u00e3o ele disse em voz baixa: \u2014 Se eu soubesse, teria procurado voc\u00ea h\u00e1 muito tempo. \u2014 Virei-me bruscamente, esmagada pela emo\u00e7\u00e3o. E a\u00ed senti um rosto macio, c\u00e1lido e suave contra o meu, e foi t\u00e3o bom, t\u00e3o bom\u2026\u201d (p. 186).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-699 size-full\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-7.jpg\" alt=\"\" width=\"337\" height=\"277\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-7.jpg 337w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-7-300x247.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 337px) 100vw, 337px\" \/><\/p>\n<p>Ora, a adolescente se aproxima de Peter, admira certos aspectos de sua personalidade, inclusive o relacionado \u00e0 sua masculinidade, e ent\u00e3o nega estar apaixonada; na sequ\u00eancia, tem um sonho com o antigo namorado, que, coincidentemente, tamb\u00e9m se chama Peter\u2026 O que Petel diz no sonho \u2013 \u201cSe eu soubesse, teria procurado voc\u00ea h\u00e1 muito tempo\u201d, poderia se encaixar perfeitamente na recente rela\u00e7\u00e3o com Peter. Os aspectos que ela descreve no amigo: o ar de desamparo e a inseguran\u00e7a, podem ser percebidos nela mesma. A tens\u00e3o de deixar transparecer que se sente atra\u00edda por ele perante qualquer pessoa, principalmente Peter, \u00e9 extrema. Estaria se prevenindo de sentir a dor do desprezo anterior de Petel? E ent\u00e3o, de repente, este aparece no sonho como que se desculpando, dizendo que n\u00e3o sabia, sen\u00e3o a teria procurado bem antes\u2026 Como Anne n\u00e3o via Petel h\u00e1 muito tempo, \u00e9 muito mais prov\u00e1vel que sua imagem represente conte\u00fados subjetivos de Anne; como Jung (1999, \u00a7510) afirma, quando a imagem de uma pessoa pr\u00f3xima a n\u00f3s, de nossa rela\u00e7\u00e3o cotidiana, aparece em sonhos, a probabilidade maior \u00e9 de que o sonho se refira \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do sonhador com a pessoa em quest\u00e3o; o contr\u00e1rio ocorre se o \u00faltimo contato com a referida pessoa foi h\u00e1 mais tempo. Assim, a imagem de Petel parece se referir menos ao adolescente do que a certos aspectos de Anne. Nas entrelinhas, \u00e9 como se dissesse: \u201cLembra-se de mim? Do nosso romance? Voc\u00ea tem medo de se decepcionar de novo, mas se Peter souber do seu amor, ele vai te procurar\u201d. Em uma analogia, \u00e9 como se o deus Eros (Cupido) aparecesse e deixasse uma mensagem instigando a aventura no campo amoroso. E o resultado desse mergulho no desconhecido acaba por mudar Anne profundamente, fazendo com que se deixe revelar aspectos mais genu\u00ednos de si aos pais e aos mais pr\u00f3ximos\u2026<\/p>\n<p>Anne n\u00e3o sabe o que ocorreu, mas ficou certa que mudou seu comportamento e atitudes ap\u00f3s o sonho. Ent\u00e3o, quase duas semanas depois, o conte\u00fado do sonho se repetiu, mas de maneira menos intensa e agrad\u00e1vel. Dia ap\u00f3s dia ela come\u00e7a a se preocupar e a questionar aspectos que antes n\u00e3o passavam por sua cabe\u00e7a. Por que as pessoas procuram esconder seus verdadeiros sentimentos? Por que ela se comportava de modo diferente do que deveria quando na companhia dos outros? Apesar de vislumbrar algum motivo para isso, percebe que \u00e9 horr\u00edvel descobrir que n\u00e3o pode confiar em ningu\u00e9m, nem nos mais pr\u00f3ximos. Sente que amadureceu desde o sonho citado. Tornou-se uma pessoa independente. \u201cVoc\u00ea pode me dizer por que as pessoas se esfor\u00e7am tanto para esconder seu eu verdadeiro?\u201d At\u00e9 sua atitude anterior para com os Van Daan, com os quais era intensamente cr\u00edtica, mudara: admitiu que usava de puro preconceito. A autora do Di\u00e1rio queria \u201cver as coisas com olhos novos\u201d e formar sua opini\u00e3o, n\u00e3o somente copiar os pais. (p. 193-195).<\/p>\n<p>A vida da adolescente antes do esconderijo era muito diferente, a ponto de parecer mesmo irreal diante de si mesma. Sua vida era \u201ccelestial\u201d, completamente diferente da menina ajuizada dentro daquelas paredes. Ela tinha cinco admiradores em cada esquina, umas vinte amigas, era a preferida da maioria dos professores, mimada pelos pais, portava sacolas recheadas de doces e tinha dinheiro para gastar. N\u00e3o poderia pedir mais nada. E isso n\u00e3o ocorria s\u00f3 porque era atraente. Ela divertia os professores com suas respostas espertas, observa\u00e7\u00f5es engra\u00e7adas, seu rosto sorridente e pensamento cr\u00edtico. Se descrevia como uma tremenda namoradeira, charmosa e animada. Mas ent\u00e3o ca\u00edra na realidade: acostumou-se a viver sem admira\u00e7\u00e3o. Aquela Anne era o centro das aten\u00e7\u00f5es, divertida e agrad\u00e1vel, mas superficial. No entanto, apesar de n\u00e3o ter se esquecido do riso e das respostas afiadas, e conseguir paquerar e ser divertida, se ainda quisesse, gostaria apenas de ter essa vida descuidada apenas por uma tarde, no m\u00e1ximo uma semana. Ent\u00e3o ficaria exausta e agradeceria se algu\u00e9m se aproximasse e conversasse sobre algo importante. \u201cQuero amigos e n\u00e3o admiradores. Pessoas que me respeitem pelo car\u00e1ter e pelo que fa\u00e7o, n\u00e3o pelo sorriso encantador. O c\u00edrculo ao meu redor seria bem menor, mas n\u00e3o importa, desde que fosse composto por gente sincera.\u201d (p. 234-235). Isso \u00e9 muito intrigante. O que a confidente deixa claro \u00e9 ter havido uma mudan\u00e7a muito profunda: a de uma atitude extrovertida para outra completamente oposta, a introvertida. Essa mudan\u00e7a pode ser ou n\u00e3o de longo prazo, e pode vigorar apenas enquanto perdura a condi\u00e7\u00e3o altamente restritiva em que se encontra. Por outro lado, devido a ela se encontrar em um momento decisivo em sua vida, de transi\u00e7\u00e3o da vida infantil para a adulta, pode ocorrer de essas mudan\u00e7as serem permanentes. Pelo menos a autora parece tender a permanecer na atitude introvertida at\u00e9 a interrup\u00e7\u00e3o definitiva do Di\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-700 size-full\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-8.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"307\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-8.jpg 640w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-8-300x144.jpg 300w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-8-585x281.jpg 585w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Essa introvers\u00e3o se manifesta na forma de \u00eanfase nas pr\u00f3prias ideias e na import\u00e2ncia para com os pr\u00f3prios sentimentos, em rela\u00e7\u00e3o aos das outras pessoas, especialmente os pais. Nesse sentido, sente-se completamente independente (p. 249). Tamb\u00e9m, por sentir mais facilidade em expressar no papel o que desejava (p. 257) \u2013 o extrovertido prefere a fala. Na verdade, Anne chega mesmo a admitir sentimentos muito estranhos para a sua idade, a ponto de mant\u00ea-los conscientes ao lado de outros, opostos, mais \u201cnormais\u201d:<\/p>\n<p>Sei que sou melhor do que mam\u00e3e num debate ou numa discuss\u00e3o, sei que sou mais objetiva, n\u00e3o exagero tanto, sou muito mais arrumada e mais h\u00e1bil com as m\u00e3os, e por causa disso sinto (isso pode fazer voc\u00ea rir) que sou superior a ela em muita coisa. Para amar uma pessoa, preciso admir\u00e1-la e respeit\u00e1-la, mas n\u00e3o sinto respeito nem admira\u00e7\u00e3o por mam\u00e3e! (p. 249)<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica de manter a consci\u00eancia de dois ou mais conte\u00fados opostos \u00e9 bem mais t\u00edpica da meia-idade em diante, tendendo, ent\u00e3o, a se estender a v\u00e1rios outros conte\u00fados. Por\u00e9m, isso fica muito mais evidente quando o assunto \u00e9 sexo. Anne possui um pensamento de vanguarda sobre o assunto. Os pais deveriam, para ela, contar tudo o que sabem sobre sexo aos filhos, ao inv\u00e9s de deixar que descubram sozinhos. Sua opini\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o o fazem por medo de os filhos n\u00e3o mais perceberem o casamento como sagrado e puro. Seus pais, por exemplo, s\u00f3 mencionaram a menstrua\u00e7\u00e3o quando fez 11 anos, mesmo assim sem explicar a origem do fluxo. Os outros detalhes ficou sabendo por dedu\u00e7\u00e3o ou por meio de sua amiga Jacque. Mas com sua mudan\u00e7a recente, decide tocar no assunto com a irm\u00e3 e com Peter, e se inteira de mais detalhes, inclusive da vida sexual dos meninos.<\/p>\n<p>Anne descobre, chega a admitir e n\u00e3o interfere no amor que sua irm\u00e3 Margot sente por Peter. Ela a compreende, sente que ela sofre quando fica com Peter, o que \u00e9 muito desagrad\u00e1vel. Elas trocam cartas sobre o assunto, e Anne d\u00e1 prefer\u00eancia a que ela escreva em vez de conversar, \u201cporque para mim \u00e9 mais f\u00e1cil dizer no papel o que desejo do que cara a cara\u201d (p. 255-257).<\/p>\n<p>Ocorrem ent\u00e3o v\u00e1rios sonhos com Peter. Em um eles se beijam, mas se frustra com o rosto barbeado do rapaz, parecido com o do pai (p. 238-239). A adolescente se percebe apaixonada e angustiada com a possibilidade de n\u00e3o ter seus sentimentos correspondidos. Anseia que ele a beije, mas receia muito demonstrar: \u201cTenho de parar, tenho de ficar calma. Vou tentar ser forte de novo, e se eu for paciente, o restante vir\u00e1. Mas \u2013 e esta \u00e9 a pior parte \u2013 parece que vivo atr\u00e1s dele. Sou sempre eu que tenho de subir; ele nunca vem me procurar.\u201d (p. 276). Duas semanas depois eles sentam no div\u00e3 de Peter, se tocam, e o rapaz acaricia seu bra\u00e7o, rosto e cabelos, beijando-a na orelha (p. 296). Mais duas semanas e ela refere ao sonho que a mudou, onde sentia o rosto do ex-namorado e uma felicidade maravilhosa. Notou que tinha a mesma sensa\u00e7\u00e3o com Peter, embora n\u00e3o t\u00e3o intensamente, at\u00e9 que ap\u00f3s mais duas semanas se abra\u00e7am de novo no div\u00e3. Ent\u00e3o a Anne cotidiana, muito confiante e divertida, deu lugar \u00e0 segunda Anne, gentil e amorosa. Emocionou-se, l\u00e1grimas ca\u00edram\u2026 Ao se despedir, ia dar o segundo beijo no rosto quando seus l\u00e1bios se encontraram. Os dilemas aumentaram: n\u00e3o deveria se retrair? Queria se casar, mas percebia que seria imposs\u00edvel. \u201cPeter ainda tem pouco car\u00e1ter, pouca for\u00e7a de vontade, pouca firmeza e coragem. Ainda \u00e9 uma crian\u00e7a, emocionalmente n\u00e3o tem mais idade do que eu; s\u00f3 quer felicidade e paz de esp\u00edrito.\u201d (p. 304-306).<\/p>\n<p>O Di\u00e1rio relata v\u00e1rios outros eventos importantes: a escassez de alimentos, as amea\u00e7as de captura, os bombardeios, as invas\u00f5es do esconderijo por ladr\u00f5es, o drama dos ajudadores, v\u00e1rias fases da segunda grande guerra, etc. Para Anne, a guerra n\u00e3o era obra s\u00f3 do governo e dos capitalistas. As pessoas comuns teriam uma necessidade destrutiva de demonstrar f\u00faria, de assassinar e matar. Ela costuma se sentir mal, mas n\u00e3o se desespera. A vida no esconderijo seria uma \u201caventura interessante, cheia de perigo e romance, e cada priva\u00e7\u00e3o \u00e9 algo divertido a acrescentar no Di\u00e1rio. [\u2026] O que estou vivenciando aqui \u00e9 um bom in\u00edcio para uma vida interessante, e este \u00e9 o motivo \u2013 o \u00fanico \u2013 para eu rir do lado engra\u00e7ado dos momentos perigosos.\u201d Ela n\u00e3o quer se tornar uma dona de casa comum (p. 311).<\/p>\n<p>Num dos \u00faltimos embates contidos no Di\u00e1rio, Anne se recusa a n\u00e3o subir ao quarto de Peter. E faz isso escrevendo uma carta, afirmando como ganhara sua independ\u00eancia por meio do abandono, da solid\u00e3o e da tristeza. N\u00e3o sente mais necessidade de prestar conta aos pais de seus atos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o quer fazer nada escondida. Explica que antes era barulhenta para evitar ser infeliz o tempo todo, para n\u00e3o ouvir sua voz interior. Vinha representando dia sim, dia n\u00e3o, usando uma m\u00e1scara que agora se recusava a sustentar. Ele teria que confiar nela cegamente ou proibi-la terminantemente de subir. N\u00e3o iria seguir simples recomenda\u00e7\u00f5es. Logo ap\u00f3s os dois choraram muito na conversa que tiveram. O Sr. Frank disse que Anne foi muito injusta, que n\u00e3o fizeram nada para merecer uma censura daquelas e que nunca recebeu uma carta t\u00e3o dolorosa como aquela. Ela se arrependeu e chorou amargamente por tudo o que disse sobre ele (p. 312-315).<\/p>\n<p>Em um momento, ela reflete sobre o tipo de relacionamento que possui com Peter. Sente que o conquistou e n\u00e3o que foi conquistada. Admite que criou uma imagem ideal do rapaz para que pudesse abrir sua alma a ele. Quando finalmente conseguiu seu intento, sentiu-se revoltada, pois percebeu que a intimidade conseguida abrangia elementos muito particulares, mas n\u00e3o os assuntos do seu cora\u00e7\u00e3o. Usou intimidade para se aproximar dele, e esta tornou-se seu \u201csalva-vidas\u201d, ao qual se agarrava. Mas justamente esta os afastou de outras formas de amizade. Pelo menos conseguira romper seu mundo estreito e expandir o horizonte de sua adolesc\u00eancia (p. 364-365).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-701\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-9-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-9-300x225.jpg 300w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-9.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Ent\u00e3o a adolescente escreve sua \u00faltima carta a Kitty, concluindo seu Di\u00e1rio com \u201cchave de ouro\u201d. Ao longo de todo o Di\u00e1rio ela pontuou brevemente que era partida em duas Annes. Mas agora, por algum motivo desconhecido, surge uma necessidade de faz\u00ea-lo mais profundamente. Descreve-se como um \u201cfeixe de contradi\u00e7\u00f5es\u201d, de for\u00e7as que se imp\u00f5em de fora e de dentro. Como resultado das primeiras tem-se a Anne n\u00ba 1: n\u00e3o aceita a opini\u00e3o dos outros, sempre sabe mais e det\u00e9m a \u00faltima palavra (caracter\u00edsticas desagrad\u00e1veis pelas quais \u00e9 conhecida); a n\u00ba 2 \u00e9 seu segredo. A primeira \u00e9 exuberante, petulante, cont\u00e9m a alegria de viver e aprecia o lado mais leve das coisas.<\/p>\n<p>Esse meu lado costuma ficar \u00e0 espreita para emboscar o outro, que \u00e9 mais puro, mais profundo e melhor. Ningu\u00e9m conhece o lado melhor de Anne, e \u00e9 por isso que muita gente n\u00e3o me suporta. Ah, eu posso ser uma palha\u00e7a engra\u00e7ada por uma tarde, mas depois disso todo mundo se enche de mim por um m\u00eas. [\u2026] Meu lado mais leve, mais superficial, vai sempre tirar vantagem do lado mais profundo, e com isso vencer\u00e1 sempre. Voc\u00ea n\u00e3o pode imaginar quantas vezes tentei empurrar para longe essa Anne, que \u00e9 somente a metade do que se conhece como Anne \u2013 derrub\u00e1-la, escond\u00ea-la. (p. 368)<\/p>\n<p>Mas ela n\u00e3o faz isso porque tem medo de zombarem dela, achando-a rid\u00edcula e sentimental, de n\u00e3o a levarem a s\u00e9rio. A Anne leviana consegue lidar com isso, mas a mais profunda \u00e9 fraca demais. Se for\u00e7ar a Anne boa a aparecer e esta for chamada a falar, ela se fecha, deixando a Anne n\u00ba 1 dizer o texto. Por isso, a Anne boa, pura, nunca \u00e9 vista acompanhada, pois s\u00f3 \u00e9 assim consigo mesma, guia-se por ela; pensa em si como feliz por dentro, fazendo os outros pensarem que \u00e9 feliz por fora. \u201cA Anne jovial gargalha, d\u00e1 uma resposta ferina, encolhe os ombros e finge que nem liga. A Anne quieta reage do modo oposto. Se estou sendo completamente honesta, tenho de admitir que isso me importa, que tento arduamente mudar, mas me vejo sempre diante de um inimigo mais poderoso.\u201d (p. 369).<\/p>\n<p>Pode-se afirmar que a Anne n\u00ba 2 constitui a identifica\u00e7\u00e3o da adolescente com a personifica\u00e7\u00e3o do seu Di\u00e1rio, Kitty. Em ingl\u00eas, \u201cKitty\u201d costuma ser o nome que uma crian\u00e7a d\u00e1 a um gato. Como se sabe, esse \u00e9 um animal menos expressivo, mais individual, caracter\u00edsticas t\u00edpicas da introvers\u00e3o. Provavelmente o Di\u00e1rio promoveu ainda mais a express\u00e3o da \u201csegunda s\u00e9rie\u201d, a personalidade futura da crian\u00e7a, como aludido anteriormente. Progressivamente, Anne toma consci\u00eancia de sua persona infantil e se diferencia dela. \u00c0 medida que se expressa mais e mais, uma Anne genu\u00edna, mais aut\u00f4noma e independente dos pais, muito menos infantil, emerge daquela que existia praticamente em refer\u00eancia \u00e0s outras pessoas. A menstrua\u00e7\u00e3o enquanto segredo enfatiza isso. Seu misterioso ciclo viria lembr\u00e1-la de que n\u00e3o era mais crian\u00e7a\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-702\" src=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-10-300x198.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"198\" srcset=\"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-10-300x198.jpg 300w, https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Diario-Anne-Frank-10.jpg 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>A divis\u00e3o em dois est\u00e1 relacionada a um avan\u00e7o da consci\u00eancia. Ao irromper na consci\u00eancia e se manifestar, o conte\u00fado inconsciente se desfaz em pares de opostos. Temas como dualidade, g\u00eameos, duas frutas ou objetos, etc., indicam no\u00e7\u00f5es que est\u00e3o prestes a serem percebidas. Isso ocorre porque s\u00f3 se pode reconhecer algo quando h\u00e1 um oposto para compara\u00e7\u00e3o. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o essencial para o conhecimento: o branco s\u00f3 \u00e9 percebido devido ao reconhecimento do preto. Por isso, tudo o que \u00e9 consciente, tudo o que se sabe, que se est\u00e1 ciente, n\u00e3o pode dispensar os pares de opostos (JUNG, 2011, p. 410). E assim, Anne toma conhecimento de si mesma, isto \u00e9, de seu Si-mesmo, de sua ess\u00eancia, daquilo que \u00e9 mais genu\u00edno em algu\u00e9m. Na medida em que se percebe como uma contradi\u00e7\u00e3o, pessoas opostas dentro de si, ela se conscientiza de aspectos antes n\u00e3o formulados conscientemente.<\/p>\n<p>Salvo melhor ju\u00edzo, as reflex\u00f5es sobre si mesma e a fase de maior express\u00e3o do processo de autoconhecimento de Anne se encontra na descri\u00e7\u00e3o da comemora\u00e7\u00e3o de seu anivers\u00e1rio (13\/06\/1944) at\u00e9 as \u00faltimas reflex\u00f5es no final do Di\u00e1rio (01\/08\/1944), constantes acima. No dia 4 de agosto todos os refugiados e seus protetores foram presos. Anne e sua irm\u00e3 morreram de tifo no campo de concentra\u00e7\u00e3o Bergen-Belsen, em Hannover, Alemanha. O mais interessante \u00e9 que ela come\u00e7ou o Di\u00e1rio h\u00e1 mais de dois anos antes, e justamente \u00e0 proximidade de sua pris\u00e3o, intensificou seu processo de introspec\u00e7\u00e3o. Talvez seu inconsciente houvesse detectado ind\u00edcios subliminares \u00e0 sua volta acerca da dela\u00e7\u00e3o que algu\u00e9m viria fazer ou j\u00e1 teria feito. Haveria tamb\u00e9m uma sincronicidade ligada \u00e0 sua transforma\u00e7\u00e3o \u00edntima em andamento, relacionada conjuntamente aos acontecimentos simb\u00f3licos da sua separa\u00e7\u00e3o dos pais, do amigo\/paquera e dos demais; da mudan\u00e7a do local de perman\u00eancia; e das mortes decorrentes. A morte \u00e9 s\u00edmbolo claro e n\u00edtido de transforma\u00e7\u00e3o, de mudan\u00e7a e de separa\u00e7\u00e3o. As apari\u00e7\u00f5es da amiga Hanneli e da av\u00f3, pertencentes ao al\u00e9m, tamb\u00e9m parecem anunciar sua pr\u00f3pria morte, a ocorrer um ano depois. Todos esses sinais significativos apontam para o final, para o local onde o rio encontra o mar. E o Di\u00e1rio de Anne Frank foi de encontro \u00e0 coletividade humana, fascinando pessoas de todas as idades, justamente porque sua subst\u00e2ncia, imbu\u00edda do mito, serve de testemunho de um grave evento humano, e de processos t\u00edpicos do desenvolvimento da personalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p>EDINGER, Edward F.\u00a0<strong>Ci\u00eancia da alma \u2013\u00a0<\/strong>uma perspectiva junguiana. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004.<\/p>\n<p>ELIADE, Mircea.\u00a0<strong>O sagrado e o profano<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1992.<\/p>\n<p>ARENOW. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/erenow.com\/ww\/younggirldiary\/3.html&gt; Acesso em 11\/02\/18.<\/p>\n<p>FRANK, Anne.\u00a0<strong>O di\u00e1rio de Anne Frank<\/strong>. 36 Ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2016.<\/p>\n<p>JOHNSON, Robert A.\u00a0<strong>We<\/strong>: a chave da psicologia do amor rom\u00e2ntico. S\u00e3o Paulo: Mercuryo, 1997.<\/p>\n<p>JUNG, Carl Gustav.\u00a0<strong>A din\u00e2mica do inconsciente<\/strong>. 2. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1991a, v. VIII.<\/p>\n<p><strong>______. Cartas I<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1999.<\/p>\n<p>______.\u00a0<strong>Mem\u00f3rias, sonhos e reflex\u00f5es<\/strong>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.<\/p>\n<p>______.\u00a0<strong>Semin\u00e1rios sobre sonhos de crian\u00e7as<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011.<\/p>\n<p>LIMA FILHO, Alberto Pereira.\u00a0<strong>O pai e a psique<\/strong>. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002.<\/p>\n<p>ZWEIG, Connie. ABRAMS, Jeremiah (Org.).\u00a0<strong>Ao encontro da sombra<\/strong>. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1994.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Charles A. Resende<\/strong><\/p>\n<p><strong>Psic\u00f3logo CRP 6\/99598<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A autora do Di\u00e1rio em an\u00e1lise, uma menina de seus 14 anos, denota ser, em geral, e de in\u00edcio, intolerante, sem autocr\u00edtica, dedicada a discuss\u00f5es acaloradas com membros de sua&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":704,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[226,222,43,17,225,230,198,228,229,45,164,224,227],"class_list":["post-693","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-psicologia-analitica","tag-a-dinamica-do-inconsciente","tag-ao-encontro-da-sombra","tag-carl-gustav-jung","tag-carl-jung","tag-cartas-i","tag-ciencia-da-alma-uma-perspectiva-junguiana","tag-memorias-sonhos-e-reflexoes","tag-o-diario-de-anne-frank","tag-o-sagrado-e-o-profano","tag-psicologia-analitica","tag-psicologia-junguiana","tag-seminarios-sobre-sonhos-de-criancas","tag-we-a-chave-da-psicologia-do-amor-romantico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=693"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/693\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":703,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/693\/revisions\/703"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/704"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}