{"id":760,"date":"2017-03-31T04:03:53","date_gmt":"2017-03-31T04:03:53","guid":{"rendered":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/?p=760"},"modified":"2023-04-13T14:31:00","modified_gmt":"2023-04-13T14:31:00","slug":"dioniso-e-apolo-e-a-loucura-divina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/dioniso-e-apolo-e-a-loucura-divina\/","title":{"rendered":"DIONISO E APOLO E A LOUCURA DIVINA"},"content":{"rendered":"<p>Inicio esse texto apresentando a par\u00e1bola da biga, que Plat\u00e3o apresentou em seu di\u00e1logo Fredo (se\u00e7\u00f5es 246a \u2013 254e) usa para explicar sua vis\u00e3o a respeito alma humana.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s de um di\u00e1logo com S\u00f3crates, ele d\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o onde usa essa par\u00e1bola em uma discuss\u00e3o do m\u00e9rito do amor como \u201cdivina loucura\u201d.<\/p>\n<p>Na par\u00e1bola Plat\u00e3o fala de um condutor guiando uma biga puxada por dois cavalos alados. Um cavalo \u00e9 branco, tem um grande pesco\u00e7o, \u00e9 bem educado, corre sem chibatadas, tem boa \u00edndole, \u00e9 d\u00f3cil, e segue o caminho que leva \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. O outro \u00e9 preto, pesco\u00e7o curto, mal alimentado e problem\u00e1tico, tem m\u00e1 \u00edndole, \u00e9 ind\u00f3cil, deseja retornar para a terra.<\/p>\n<p>O condutor da biga seria a representa\u00e7\u00e3o do intelecto, da raz\u00e3o ou da parte da alma que deve guiar o esp\u00edrito \u00e0 verdade; o cavalo branco representa o impulso racional ou moral ou a parte positiva da paix\u00e3o (ou a indigna\u00e7\u00e3o correta); o cavalo preto representa as paix\u00f5es irracionais da alma, o apetite ou a natureza concupiscente. O condutor dirige a biga (met\u00e1fora da alma) tentando impedir que os cavalos sigam dire\u00e7\u00f5es opostas.<\/p>\n<p>Essa imagem da biga, condutor e os cavalos seria a met\u00e1fora da loucura divina.<\/p>\n<p>Essa loucura divina, na qual Plat\u00e3o acreditava, seria a base fundamental de toda criatividade.<\/p>\n<p>\u00c9 senso comum que a genialidade ande de m\u00e3os dadas com a loucura. O poder criativo caminha lado a lado com instabilidade ps\u00edquica. As varia\u00e7\u00f5es extremas de humor, manias, fixa\u00e7\u00f5es, depend\u00eancia de \u00e1lcool ou drogas ainda hoje atormentam a vida de muitas mentes criativas.<\/p>\n<p>Carl Jung cita que se sentiu diversas vezes pr\u00f3ximo a loucura, e relata essas experiencias em seu Livro Vermelho. Contudo, essas experiencias que o aproximaram da loucura foram a fonte de sua criatividade para que pudesse criar a sua obra.<\/p>\n<p>Assim cada forma de loucura tem uma origem divina.<\/p>\n<p>A par\u00e1bola de Plat\u00e3o sobre a alma dividida d\u00e1 ent\u00e3o a dimens\u00e3o do fio inicial da argumenta\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica: \u2018fazer amor\u2019 pode at\u00e9 ser uma necessidade, um prazer, uma realiza\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, uma necessidade, um prazer e uma realiza\u00e7\u00e3o do corpo. Esse \u2018fazer amor\u2019 apenas cria prisioneiros da empiricidade, das coisas do mundo, faz esquecer. O mergulho demasiado \u00e0s paix\u00f5es do corpo leva, inexoravelmente, ao desregramento.<\/p>\n<p>Mas para Plat\u00e3o o encontro com o del\u00edrio er\u00f3tico, torna poss\u00edvel o encontro do sagrado com o profano.<\/p>\n<p>A loucura divina ocorre na oposi\u00e7\u00e3o raz\u00e3o e desraz\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o que isso tem a ver com a Mitologia Grega?<\/p>\n<p>Podemos encontrar essa ideia de alma dividida de Plat\u00e3o na Mitologia Grega, no simbolismo do Or\u00e1culo de Delfos e nos deuses que o regiam.<\/p>\n<p>O Or\u00e1culo de Delfos, localizado na cidade de Delfos, regi\u00e3o central da Gr\u00e9cia, foi um dos mais famosos or\u00e1culos do mundo grego antigo. O Deus Apolo era o regente do or\u00e1culo, que matou a serpente guardi\u00e3 Pyton e assumiu o lugar de regente.<\/p>\n<p>Apolo n\u00e3o era o \u00fanico deus em Delfos. Ele dividia a reg\u00eancia com seu irm\u00e3o Dioniso.<\/p>\n<p>Dion\u00edsio passava o inverno em Delfos e o ver\u00e3o em Atenas, e era tamb\u00e9m venerado l\u00e1; a coexist\u00eancia destes cultos era uma prova de respeito m\u00fatuo, entre duas for\u00e7as antag\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Apolo era o deus da beleza. Da perfei\u00e7\u00e3o, da modera\u00e7\u00e3o, harmonia, equil\u00edbrio e raz\u00e3o. Era ligado \u00e0 ordem social, sendo um s\u00edmbolo da adapta\u00e7\u00e3o do homem \u00e0 vida externa, devido ao seu car\u00e1ter civilizador.<\/p>\n<p>Mais ligado \u00e0 esfera racional, \u00e0 vida cotidiana, \u00e0 arte e \u00e0 ordem social, preservando, contudo, seu papel de inspirador da profecia e portador da palavra divina, ou Logos, tamb\u00e9m um s\u00edmbolo do esp\u00edrito e do intelecto. Sua inspira\u00e7\u00e3o vinha da esfera do pensamento e da l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Uma imagem arquet\u00edpica que auxilia o ego na adapta\u00e7\u00e3o ao mundo externo e suas exig\u00eancias.<\/p>\n<p>Apolo era a ant\u00edtese e o complemento de Dion\u00edsio,<\/p>\n<p>Dioniso o deus do vinho, da loucura, dos excessos, da altern\u00e2ncia entre as esta\u00e7\u00f5es do ano, das rela\u00e7\u00f5es entre corpo e alma, da mescla entre o divino e o profano, embriaguez, mist\u00e9rios ocultos, das emo\u00e7\u00f5es descontroladas, da transgress\u00e3o \u00e0 ordem estabelecida, da embriaguez e das orgias.<\/p>\n<p>Desregrado, depravado, diferenciava em muito de Apolo que abominava o descontrole emocional e a afeta\u00e7\u00e3o dos instintos. O deus do vinho tamb\u00e9m era o deus da loucura e do desmembramento.<\/p>\n<p>Desde sua inf\u00e2ncia Carl Jung percebe em si e a presen\u00e7a de duas personalidades: a personalidade n\u00famero 1 e a personalidade n\u00famero 2. A personalidade n\u00famero 1 \u00e9 a adaptada a sua idade e ao meio em que ele vive. J\u00e1 a personalidade n\u00famero 2, \u00e9 misteriosa, possuidora de um conhecimento de origem desconhecida, de outro tempo e lugar e n\u00e3o \u00e9 adaptada ao mundo em que ele vive.<\/p>\n<p>Jung estabelece um di\u00e1logo entre as duas personalidades por meio da imagina\u00e7\u00e3o ativa, que se nomeiam\u00a0<em>Esp\u00edrito da \u00c9poca\u00a0<\/em>e\u00a0<em>Esp\u00edrito das profundezas<\/em>. O esp\u00edrito da \u00c9poca<strong>,\u00a0<\/strong>se apresentou a ele e se apresenta a n\u00f3s em nossa luta pela vida, na batalha do Ego por um lugar no mundo, na necessidade de autoafirma\u00e7\u00e3o, na busca de um trabalho e na adapta\u00e7\u00e3o social. Apesar dessa adapta\u00e7\u00e3o externa ser necess\u00e1ria, ao atender o esp\u00edrito da \u00e9poca, perdemos o contato com desejos, instintos inconscientes e assim com a Totalidade<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>O\u00a0<em>Esp\u00edrito das profundezas<\/em>\u00a0faz a conex\u00e3o com a Totalidade, com o mundo dos arqu\u00e9tipos. Nos reconecta com nossas profundezas. \u00c9 o mundo do irracional, onde a palavra n\u00e3o se ajusta, mas apenas imagens e emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 a conex\u00e3o do ego com o mundo dos arqu\u00e9tipos e dos instintos primitivos. Atrav\u00e9s desse esp\u00edrito se faz a adapta\u00e7\u00e3o com o mundo interno. Sonhos, fantasias, imagina\u00e7\u00e3o ativa, s\u00e3o formas de contato com ele e de contato com nossas verdades internas e profundas.<\/p>\n<p>O contato com esse mundo interior \u00e9 sempre uma viagem \u00e0 beira da loucura, do irracional. Nosso mundo vira de ponta cabe\u00e7a. Aquilo que ach\u00e1vamos que tinha valor na vida externa acaba perdendo o sentido e nos sentimos muito pr\u00f3ximos de nossa animalidade e das nossas emo\u00e7\u00f5es indiferenciadas.<\/p>\n<p>No or\u00e1culo de Delfos, ent\u00e3o, vemos essas duas for\u00e7as contradit\u00f3rias convivendo juntas. Apolo \u00e9 aquele que traz a ordem, simbolizando nosso chamado a atender ao\u00a0<em>Esp\u00edrito da \u00e9poca<\/em>. Apolo \u00e9 soci\u00e1vel, agrad\u00e1vel e belo.<\/p>\n<p>Apolo o arqueiro infal\u00edvel e deus da luz, o matador da serpente P\u00edton \u2013 s\u00edmbolo das for\u00e7as do mundo subterr\u00e2neo e do caos irracional, mostra que para atendermos a necessidade de adapta\u00e7\u00e3o externa temos que dominar nossa animalidade atrav\u00e9s da disciplina e conhecimento, por isso Apolo \u00e9 considerado o deus das penit\u00eancias e purifica\u00e7\u00f5es. Com isso perdemos o contato com os instintos e emo\u00e7\u00f5es. Corpo e alma padecem nesse processo de socializa\u00e7\u00e3o e atendimento ao chamado da cultura e socializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dioniso o deus da embriaguez e do descomedimento mostra por meio de sua representa\u00e7\u00e3o, que representa o\u00a0<em>Esp\u00edrito das Profundezas<\/em>. Entrar em contato com sua natureza interior pode ser considerada um desmembramento que pode levar a loucura moment\u00e2nea e a morte da personalidade consciente para o renascimento e renova\u00e7\u00e3o da atitude consciente.<\/p>\n<p>Dioniso \u00e9 a crian\u00e7a divina tamb\u00e9m, s\u00edmbolo da juventude e renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nosso lado Apol\u00edneo \u00e9 o lado da raz\u00e3o, cultura e do racioc\u00ednio l\u00f3gico. Que \u00e9 belo e radiante, mas que \u2013 como no mito de Apolo \u2013 tamb\u00e9m \u00e9 cruel e mata toda forma de manifesta\u00e7\u00e3o de amor. Apolo foi o deus que amou e n\u00e3o foi correspondido. Todas as suas tentativas de se relacionar terminaram de forma tr\u00e1gica, o que mostra que a raz\u00e3o mata a emo\u00e7\u00e3o. O amor \u00e9 irracional em sua manifesta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem l\u00f3gica. Ele surge de uma necessidade interior e \u00e9 o grande chamado para o encontro com a alma e o mundo interno.<\/p>\n<p>Por outro lado, o Dionis\u00edaco \u00e9 nosso lado ca\u00f3tico e que apela para as emo\u00e7\u00f5es e instintos.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o criada pela intera\u00e7\u00e3o entre esses dois aspectos em n\u00f3s gera a loucura divina. A trag\u00e9dia nasce desse encontro, assim como a criatividade.<\/p>\n<p>Estar a servi\u00e7o desses dois esp\u00edritos antag\u00f4nicos \u00e9 a verdadeira ess\u00eancia da loucura divina.<\/p>\n<p>A dicotomia estruturadora da psique humana, que ora \u00e9 regida pelos impulsos racionais (apol\u00edneos), ora pelos impulsos sexuais e instintivos (dionis\u00edacos) gera movimento. A ordem que surge do caos e a implos\u00e3o de uma ordem r\u00edgida mostra a imperman\u00eancia e a verdade da vida humana.<\/p>\n<p>Servir a apenas um desses esp\u00edritos gera unilateralidade que bloqueia o fluxo de energia ps\u00edquica e o movimento da psique.<\/p>\n<p>Apolo planeja e executa, mas na rigidez implode e mata a vida e a libido. A busca da estabilidade em uma vida ef\u00eamera causa angustia existencial. Dioniso intoxica e gera caos, mas n\u00e3o da forma aos seus devaneios e sonhos. A instabilidade da vida o aniquila em v\u00edcios.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o desses dois aspectos \u00e9 o equil\u00edbrio entre o sonhar e realizar. O caos e a ordem em equil\u00edbrio transcendente, que se unem criando nova vida e inspira\u00e7\u00e3o vision\u00e1ria.<\/p>\n<p>Texto: Hellen Reis Mour\u00e3o<\/p>\n<p>Quer saber mais clique no link abaixo:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/uk281.infusionsoft.com\/app\/form\/gravacaopalestramitologiagrega\"><strong>Curso de Mitologia Grega e seus Arqu\u00e9tipos<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/uk281.infusionsoft.com\/app\/form\/gravacaopalestramitologiagrega\">https:\/\/uk281.infusionsoft.com\/app\/form\/gravacaopalestramitologiagrega<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inicio esse texto apresentando a par\u00e1bola da biga, que Plat\u00e3o apresentou em seu di\u00e1logo Fredo (se\u00e7\u00f5es 246a \u2013 254e) usa para explicar sua vis\u00e3o a respeito alma humana. 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