{"id":917,"date":"2020-09-10T18:00:00","date_gmt":"2020-09-10T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/?p=917"},"modified":"2023-04-13T14:29:39","modified_gmt":"2023-04-13T14:29:39","slug":"senhora-razao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/senhora-razao\/","title":{"rendered":"Senhora Raz\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O mundo antigo, primitivo, permeado por seres m\u00e1gicos e pela<br \/>\nparticipa\u00e7\u00e3o incessante da natureza em todas as suas formas, comunicava-se<br \/>\ncom o ser humano e, assim, n\u00e3o o deixava \u00e0 solta, sem lugar, sem um senso<br \/>\nde pertencimento.<\/p>\n<blockquote><p>Hoje em dia, quando falamos em fantasmas e em outras<br \/>\nfiguras sobrenaturais, j\u00e1 n\u00e3o os evocamos. Essas palavras,<br \/>\nque j\u00e1 foram t\u00e3o convincentes, perderam tanto o seu poder<br \/>\nquanto a sua gl\u00f3ria. Deixamos de acreditar em f\u00f3rmulas<br \/>\nm\u00e1gicas; restaram-nos poucos tabus e restri\u00e7\u00f5es semelhantes;<br \/>\ne nosso mundo parece ter sido saneado de todos esses numes<br \/>\n\u201csupersticiosos\u201d, tais como feiticeiras, bruxas e duendes, para<br \/>\nn\u00e3o falarmos nos lobisomens, vampiros, almas do mato e todos<br \/>\nos seres bizarros que povoavam as florestas primitivas (JUNG,<br \/>\n2016, p 120).<\/p><\/blockquote>\n<p>O mundo encontra-se mais duro, mais \u00e1rido, com menos encantamentos<br \/>\ne mais restrito em geral. A exist\u00eancia muitas vezes pode se resumir tristemente<br \/>\n\u00e0 um c\u00e1lculo, \u201cnua e crua\u201d. Mas isto n\u00e3o significa que nossa alma deixou de<br \/>\nansiar pelo alimento que \u00e0 pertence, o universo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do nosso alcance intelectual criamos um mundo em que<br \/>\ndominamos a natureza atrav\u00e9s das m\u00e1quinas e da tecnologia. Esse grande<br \/>\ndesenvolvimento trouxe uma sensa\u00e7\u00e3o de poder e de liberdade, mas esse<br \/>\npr\u00f3prio movimento desmedido pode acarretar continuamente em grandes<br \/>\nperigos.<\/p>\n<blockquote><p>Nosso intelecto criou um novo mundo que domina a natureza e<br \/>\nainda a povoou de m\u00e1quinas monstruosas. Essas m\u00e1quinas<br \/>\ns\u00e3o t\u00e3o incontestavelmente \u00fateis que nem podemos imaginar a<br \/>\npossibilidade de nos descartarmos delas ou escapar \u00e0<br \/>\nsubservi\u00eancia a que nos obrigam. O homem n\u00e3o resiste \u00e0s<br \/>\nsolicita\u00e7\u00f5es aventurosas de sua mente cient\u00edfica e inventiva<br \/>\nnem cessa de se parabenizar pelas suas esplendidas<br \/>\nconquistas. Ao mesmo tempo, sua genialidade revela uma<br \/>\nmisteriosa tend\u00eancia a inventar coisas cada vez mais<br \/>\nperigosas, que representam instrumentos cada vez mais<br \/>\n<span style=\"font-size: 14px; color: #313131;\">eficazes de suic\u00eddio coletivo (JUNG, 2016, p 128).<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>A tenta\u00e7\u00e3o em acreditar que tudo pode ser controlado segundo sua<br \/>\npr\u00f3pria vontade, leva a humanidade, paulatinamente a encontrar-se com um<br \/>\ndestino incontrol\u00e1vel, expresso pela pr\u00f3pria natureza ou em decorr\u00eancia de<br \/>\ngrandes inven\u00e7\u00f5es que podem seguir um curso independente, a partir de um<br \/>\ndado momento.<\/p>\n<blockquote><p>Em vista da crescente e s\u00fabita avalanche de nascimentos, o<br \/>\nhomem j\u00e1 come\u00e7ou a buscar meios e modos de controlar essa<br \/>\nexplos\u00e3o demogr\u00e1fica. Mas a natureza pode vir a antecipar<br \/>\nessa tarefa, voltando contra ele as suas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es. A<br \/>\nbomba de hidrog\u00eanio, por exemplo, seria um freio seguro para<br \/>\no aumento de popula\u00e7\u00e3o. A despeito da nossa orgulhosa<br \/>\npretens\u00e3o de dominar a natureza, ainda somos suas v\u00edtimas,<br \/>\npois n\u00e3o aprendemos nem a nos dominar. Atra\u00edmos o desastre<br \/>\nde maneira lenta, mas que nos parece fatal. J\u00e1 n\u00e3o existem<br \/>\ndeuses cuja ajuda podemos invocar. As grandes religi\u00f5es<br \/>\npadecem de uma crescente anemia, pois as atividades<br \/>\nprestimosas j\u00e1 fugiram dos bosques, dos rios, das montanhas e<br \/>\ndos animais, e os homens-deuses desapareceram no mais<br \/>\nprofundo do nosso inconsciente. Ilumino-nos julgando que l\u00e1 no<br \/>\ninconsciente levam uma vida humilhante entre as rel\u00edquias do<br \/>\nnosso passado. Nossas vidas s\u00e3o agora dominadas por uma<br \/>\ndeusa, a Raz\u00e3o, que \u00e9 a nossa ilus\u00e3o maior e mais tr\u00e1gica. \u00c9<br \/>\ncom a ajuda dela que acreditamos ter \u201cconquistado a natureza\u201d<br \/>\n(JUNG, 2016, p 128).<\/p><\/blockquote>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<br \/>\nJUNG, Carl. O homem e seus s\u00edmbolos. Org. Carl Gustav Jung. Trad. Maria<br \/>\nL\u00facia Pinho \u2013 3. Ed. \u2013 Rio de Janeiro: HarperColins Brasil, 2016<br \/>\nTexto: Alessandra M. Esquillaro &#8211; CRP 06\/97347<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo antigo, primitivo, permeado por seres m\u00e1gicos e pela participa\u00e7\u00e3o incessante da natureza em todas as suas formas, comunicava-se com o ser humano e, assim, n\u00e3o o deixava \u00e0&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":918,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[249,43,17,191,164],"class_list":["post-917","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-psicologia-analitica","tag-analise-junguiana","tag-carl-gustav-jung","tag-carl-jung","tag-o-homem-e-seus-simbolos","tag-psicologia-junguiana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=917"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/917\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":920,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/917\/revisions\/920"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}