{"id":944,"date":"2021-03-26T11:58:22","date_gmt":"2021-03-26T11:58:22","guid":{"rendered":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/?p=944"},"modified":"2023-04-13T14:29:32","modified_gmt":"2023-04-13T14:29:32","slug":"a-sombra-do-orientalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/a-sombra-do-orientalismo\/","title":{"rendered":"A Sombra do Orientalismo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201co homem que n\u00e3o atravessa o inferno de suas<br \/>\n<\/em><em>paix\u00f5es tamb\u00e9m n\u00e3o as supera. Elas se mudam para<br \/>\n<\/em><em>a casa vizinha e poder\u00e3o atear fogo que atingir\u00e1 sua<br \/>\n<\/em><em>casa sem que ele perceba.\u201d<\/em><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Carl Gustav Jung<\/p>\n<p>S\u00e1bado, dia 12 de agosto de 2017, um grupo de evang\u00e9licos se reuniu na praia do Arpoador no Rio de Janeiro e protestaram contra os mu\u00e7ulmanos. Os manifestantes carregavam cartazes com palavras de \u00f3dio \u00e0 religi\u00e3o isl\u00e2mica.\u00a0\u00a0 Cartazes estampavam frases que o Alcor\u00e3o (livro sagrado do isl\u00e3) \u00e9 &#8220;guia de estupro e assassinato&#8221;.\u00a0 Segundo a o site de not\u00edcias G1, o grupo de manifestantes entoava que mu\u00e7ulmanos s\u00e3o &#8220;assassinos&#8221;, &#8220;ped\u00f3filos&#8221; e &#8220;terroristas&#8221;.<\/p>\n<p>Dias antes, um refugiado s\u00edrio identificado como Mohamed Ali, de 33 anos, foi v\u00edtima de humilha\u00e7\u00e3o e agress\u00f5es. Vendedor ambulante de quitutes \u00e1rabes, Mohamed foi agredido verbalmente por causa do ponto de venda. Um v\u00eddeo da discuss\u00e3o foi publicado nas redes sociais e viralizou. Nas imagens \u00e9 poss\u00edvel ver um homem com dois peda\u00e7os de madeira nas m\u00e3os gritando: \u201csaia do meu pa\u00eds! Eu sou brasileiro e estou vendo meu pa\u00eds ser invadido por esses homens-bombas que mataram, esquartejaram crian\u00e7as, adolescentes. S\u00e3o miser\u00e1veis\u201d. Adiante no v\u00eddeo, ele ainda fala: \u201cEssa terra aqui \u00e9 nossa. N\u00e3o vai tomar nosso lugar n\u00e3o\u201d. Os comerciantes chegam a derrubar a mercadoria de Mohamed no ch\u00e3o, que pergunta o motivo da agress\u00e3o. Os homens, ent\u00e3o, falam novamente para ele sair do Brasil.<\/p>\n<p>Que energias ps\u00edquicas subjazem na islamofobia, recente no Brasil e muito\u00a0 antiga na Europa?<\/p>\n<p>Para compreender claramente esse fen\u00f4meno apelamos ao conceito de sombra, desenvolvido por Carl Gustav Jung, no campo da Psicologia Anal\u00edtica. Segundo Jung, a sombra foi legada \u00e0 humanidade pelos est\u00e1gios mais primitivos da exist\u00eancia, ao longo da jornada evolutiva empreendida pelo ser humano (1985, p. 173).<\/p>\n<p>Jung prop\u00f4s uma defini\u00e7\u00e3o mais direta e clara da sombra: &#8220;a coisa que uma pessoa n\u00e3o tem desejo de ser&#8221;. Com isso, a sombra n\u00e3o \u00e9 dotada de ju\u00edzo de valor, manique\u00edsmos ou posi\u00e7\u00f5es absolutas de boa ou ruim, bem ou mal, pois ela \u00e9 apenas o contraponto compensat\u00f3rio da consci\u00eancia do ego, ou seja, da consci\u00eancia que o ser humano tem de si mesmo.<\/p>\n<p>O ser humano tende a ocultar do mundo exterior e de si mesmo tudo que \u00e9 rejeitado pelos padr\u00f5es sociais. Valores, comportamentos que s\u00e3o deliberados como opostos \u00e0 moral social s\u00e3o, na mesma medida, rejeitados pelo individuo.\u00a0\u00a0 O dom\u00ednio pela for\u00e7a bruta, ou seja, \u201co monstro escondido\u201d dentro de cada um \u00e9 reprimido.<\/p>\n<p>Geralmente, por\u00e9m, as pessoas t\u00eam medo de olhar para si mesmas, de se verem como realmente s\u00e3o, e assim transmutar o que pertence ao campo das sombras. Normalmente o ser humano prefere projetar no \u201coutro\u201d aquilo que ele rejeita em si mesmo, da\u00ed a import\u00e2ncia de analisar com lucidez os aspectos da pr\u00f3pria personalidade que s\u00e3o comumente transferidos para outras pessoas e situa\u00e7\u00f5es.\u00a0 Assim, podemos considerar que as fobias, os \u00f3dios individuais e coletivos contra mu\u00e7ulmanos, pessoas homoafetivas, pessoas de outras etnias s\u00e3o proje\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O ser humano sempre temeu sua pr\u00f3pria sombra, pois nela pressente a presen\u00e7a de tudo que, na verdade, desejaria esquecer ou fingir que nunca existiu. Mas sem a conscientiza\u00e7\u00e3o da natureza sombria n\u00e3o h\u00e1 processo de individua\u00e7\u00e3o que se sustente. \u00c9 importante tamb\u00e9m perceber que este movimento de transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 constante, pois uma vez que admite a exist\u00eancia da natureza sombria em seu interior, o Homem ter\u00e1 que lutar incessantemente contra ela, pois enquanto ele tiver o livre arb\u00edtrio, que pressup\u00f5e a escolha, algo ser\u00e1 sempre relegado \u00e0 margem, ou seja, ao \u00e2mbito da sombra.<\/p>\n<p>Em geral, tendemos a esconder e a afastar de nossa consci\u00eancia e dos outros tudo o que \u00e9 demon\u00edaco em n\u00f3s mesmos: sentimentos de poder, ideias cru\u00e9is e assassinas, impulsos asquerosos e a\u00e7\u00f5es moralmente conden\u00e1veis. Ou ent\u00e3o, escondemos aquilo que a cultura considera horr\u00edvel e desadaptado, nossas fraquezas e os sentimentos que podem trazer frustra\u00e7\u00e3o tais como inveja, cobi\u00e7a, ambi\u00e7\u00e3o, ci\u00fame, desamparo, impot\u00eancia, derrota, solid\u00e3o, sofrimento. Escondemos tamb\u00e9m a dor de conviver com esses sentimentos.<\/p>\n<p>A sombra \u00e9 o pano de fundo da quest\u00e3o etnoc\u00eantrica. Temos a experi\u00eancia de um choque cultural. De um lado, conhecemos um grupo do \u201ceu\u201d, o \u201cnosso\u201d grupo, que come igual, veste igual, gosta de coisas parecidas, conhece problemas do mesmo tipo, acredita nos mesmos deuses, casa igual, mora no mesmo estilo, distribui o poder da mesma forma, empresta \u00e0 vida significados em comum e procede, por muitas maneiras, semelhantemente. A\u00ed, ent\u00e3o, de repente, nos deparamos com um \u201coutro\u201d, o grupo do \u201cdiferente\u201d que, \u00e0s vezes, nem sequer faz coisas como as nossas ou quando as faz \u00e9 de forma tal que n\u00e3o reconhecemos como poss\u00edveis. E, mais grave ainda, este \u201coutro\u201d tamb\u00e9m sobrevive \u00e0 sua maneira, gosta dela, tamb\u00e9m est\u00e1 no mundo e, ainda que diferente, tamb\u00e9m existe. E quando esse \u201coutro\u201d apresenta caracter\u00edsticas que o \u201ceu\u201d n\u00e3o suporta de t\u00e3o temer\u00e1rio o \u201coutro\u201d emerge como o \u201cmostro\u201d que precisa ser d Atualmente vivemos no ocidente o fen\u00f4meno no qual o Islamismo \u00e9 uma religi\u00e3o de fan\u00e1ticos e impiedosos terroristas. \u00c9 essa a imagem que a m\u00eddia ocidental constr\u00f3i do isl\u00e3. Poder\u00edamos perguntar: que temor acerca da sombra acendeu o comportamento etnoc\u00eantrico?<\/p>\n<p>Edward Said em seu livro \u201cOrientalismo\u201d coloca o Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente. Em outras palavras, a constru\u00e7\u00e3o social e discursiva de um \u2018<em>outro\u2019<\/em> serviu, por um lado, para afirmar a identidade da pr\u00f3pria Europa e, por outro, foi funcional para a expans\u00e3o colonial europeia rumo ao controle e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de grandes \u00e1reas territoriais, al\u00e9m de diversos povos n\u00e3o ocidentais. \u00a0\u00c9 a transforma\u00e7\u00e3o do n\u00e3o ocidente real em uma representa\u00e7\u00e3o do Oriente (que por si s\u00f3 simplesmente n\u00e3o existe) o objeto do estudo de Said. O orientalismo faz parte de uma estrat\u00e9gia colonial e discursiva na qual o Ocidente \u00e9 identificado com a raz\u00e3o, a civiliza\u00e7\u00e3o e o masculino, enquanto o Oriente o \u00e9 com a irracionalidade, a barb\u00e1rie e o feminino. \u00a0O discurso do orientalismo \u00e9 tanto decorr\u00eancia quanto refor\u00e7ador desse padr\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o colonial.<\/p>\n<p>O efeito sombra do Isl\u00e3 est\u00e1 por toda parte. A prova de sua dissemina\u00e7\u00e3o pode ser vista em todos os aspectos da vida. Lemos sobre ele on-line. Podemos v\u00ea-lo nos notici\u00e1rios da TV e tamb\u00e9m em amigos, familiares e estranhos na rua. E talvez possamos reconhec\u00ea-lo de forma mais expressiva em nossos pensamentos, comportamentos, e senti-lo nas intera\u00e7\u00f5es que fazemos com os outros.<\/p>\n<p>Receamos que, se lan\u00e7armos luz nessa escurid\u00e3o, isso nos far\u00e1 sentir uma imensa vergonha ou, at\u00e9 pior, nos levar\u00e1 a expressar nossos piores pesadelos. Tornamo-nos temerosos quanto ao que podemos encontrar se olharmos dentro de n\u00f3s mesmos; portanto, em vez disso, escondemos a cabe\u00e7a e nos recusamos a enfrentar o lado sombrio, preferindo insultar e agredir.<\/p>\n<p>A sombra \u00e9 um tesouro escondido. Reprimi-la pode significar um empobrecimento da vida ps\u00edquica. Integr\u00e1-la pode significar um crescimento da psique coletiva. O caminho da toler\u00e2ncia \u00e9 integrar a \u201csombra\u201d ou como diz a m\u00fasica de <strong>Gilberto Gil<\/strong>:<\/p>\n<blockquote><p><em>O mundo da sombra, caverna escondida; Onde a luz da vida foi quase apagada<\/em><\/p>\n<p><em>O mundo da sombra, regi\u00e3o do escuro; Do cora\u00e7\u00e3o duro, da alma abalada, abalada<\/em><\/p>\n<p><em>Hoje eu canto a balada do lado sem luz; Subterr\u00e2neos gelados do eterno esperar<\/em><\/p>\n<p><em>Pelo amor, pelo p\u00e3o, pela liberta\u00e7\u00e3o; Pela paz, pelo ar, pelo mar<\/em><\/p>\n<p><em>Navegar, descobrir outro dia, outro sol; Hoje eu canto a balada do lado sem luz<\/em><\/p>\n<p><em>A quem n\u00e3o foi permitido viver feliz e cantar; Como eu<\/em><\/p>\n<p><em>Ou\u00e7a aquele que vive do lado sem luz ;O meu canto \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o da promessa que diz<\/em><\/p>\n<p><em>Que haver\u00e1 esperan\u00e7a enquanto houver; Um canto mais feliz<\/em><\/p>\n<p><em>Como eu gosto de cantar; Como eu prefiro cantar<\/em><\/p>\n<p><em>Como eu costumo cantar; Como eu gosto de cantar<\/em><\/p>\n<p><em>Quando n\u00e3o t\u00e3o a balada, a balada, a balada<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A BALADA DO LADO SEM LUZ (Gilberto Gil)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este \u00e9, acredito o plano para onde a consci\u00eancia encaminha nosso pensamento. A\u00ed, no lugar em que ela exerce seu esfor\u00e7o de aprendizado, sentimentos, pensamentos e pr\u00e1ticas etnoc\u00eantricas se complexificam, se transformam, se relativizam. A\u00ed tamb\u00e9m, no encontro entre o \u201c<em>eu<\/em>\u201d e o \u201coutro\u201d, emerge uma compreens\u00e3o do ser humano, a um s\u00f3 tempo, \u00a0problematizada e generosa.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>JUNG, Carl G. <em>O Homem e seus S\u00edmbolos<\/em>. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985<\/p>\n<p>JUNG, Carl Gustav.\u00a0 <em>O Eu e o Inconscient<\/em>e. Petr\u00f3polis: Vozes, 1988<\/p>\n<p>_____. <em>Aion Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1982.<\/p>\n<p>_____. <em>A pr\u00e1tica da psicoterapia<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 1987.<\/p>\n<p>ROCHA, Everardo P. Guimar\u00e3es. <em>O que \u00e9 Etnocentrismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Brasiliense 1988<\/p>\n<p>SAID, Edward. <em>Orientalismo<\/em>: O Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/p>\n<p>Texto: Jorge Miklos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201co homem que n\u00e3o atravessa o inferno de suas paix\u00f5es tamb\u00e9m n\u00e3o as supera. 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