{"id":965,"date":"2021-05-28T12:00:32","date_gmt":"2021-05-28T12:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/?p=965"},"modified":"2023-04-13T14:29:27","modified_gmt":"2023-04-13T14:29:27","slug":"as-duas-personalidades-de-jung","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutofreedom.com.br\/blog\/as-duas-personalidades-de-jung\/","title":{"rendered":"As Duas Personalidades de Jung"},"content":{"rendered":"<p>Quando estudamos Jung e sua obra, fica claro como as coisas s\u00e3o interligadas, o pensamento gn\u00f3stico e paradoxal est\u00e1 sempre presente. Ele faz associa\u00e7\u00f5es com sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, sempre traz a quest\u00e3o dos opostos, entre outras coisas.<\/p>\n<p>Um fato interessante sobre ele, \u00e9 que ele reconhecia em si mesmo duas personalidades, praticamente opostas, ligadas cada uma a um tempo diferente.<\/p>\n<p>Segundo Sonu Shamdasani (2009, p. 195):<\/p>\n<p>Jung tamb\u00e9m tinha a impress\u00e3o de viver em dois s\u00e9culos, e sentia uma forte nostalgia pelo s\u00e9culo XVIII. Sua sensa\u00e7\u00e3o de dualidade tomou a forma de duas personalidades alternadas, que cunhou de n\u00famero 1 e n\u00famero 2. Personalidade n\u00famero 1 era o garoto da Basileia, que lia romances, e personalidade n\u00famero 2 era a que solitariamente perseguia reflex\u00f5es religiosas, num estado de comunh\u00e3o com a natureza e com o cosmo. Ela habitava o \u201cmundo de Deus\u201d. Essa personalidade lhe parecia muito real. A personalidade n\u00famero 1 queria se livrar da melancolia e do isolamento da personalidade n\u00famero 2. Quando entrava a personalidade n\u00famero 2, parecia que um esp\u00edrito h\u00e1 muito tempo morto e ainda perpetuamente presente entrava na sala. A n\u00famero 2 n\u00e3o tinha um car\u00e1ter definido; era conectada \u00e0 hist\u00f3ria, especialmente com a Idade M\u00e9dia. Para a n\u00famero 2, a n\u00famero 1, com seus fracassos e inaptid\u00f5es, era algu\u00e9m para se aguentar. Esse jogo permaneceu durante toda a vida de Jung. Do modo como ele as encarava, somos todos assim \u2013 uma parte de n\u00f3s vive no presente e outra est\u00e1 conectada com os s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a personalidade n\u00famero 1 seria a personalidade mais voltada para seu pr\u00f3prio tempo, a \u00e9poca social em que se est\u00e1 vivendo, que se interessa pelos acontecimentos da \u00e9poca, que \u00e9 mais adapt\u00e1vel \u00e0s necessidades sociais; uma personalidade com certas restri\u00e7\u00f5es, naturais ao car\u00e1ter humano, com seus defeitos e limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Enquanto a personalidade n\u00famero 2 estava interessada em outra \u00e9poca, ligada a outro tempo, ligada ao eterno. Essa personalidade era preocupada com a cria\u00e7\u00e3o, de atitude mais solit\u00e1ria, melanc\u00f3lica.<\/p>\n<p>Essa realidade em que ele vivia internamente trazia conflitos importantes que o levavam \u00e0 crises e tamb\u00e9m aprendizados, como, por exemplo, na \u00e9poca em teve que escolher uma profiss\u00e3o. Ao ter que fazer isso, ele sentiu esse conflito interior aumentar; e percebeu que cada uma dessas personalidades desejava caminhos diferentes. A n\u00famero 1 queria que ele escolhesse algum campo de forma\u00e7\u00e3o relacionado \u00e0s ci\u00eancias, enquanto a numero 2 desejava algo do campo de humanas. Foi ent\u00e3o que ele teve dois sonhos:<\/p>\n<p>No primeiro ele estava andando num bosque escuro perto do Reno. Deparou-se com um t\u00famulo e come\u00e7ou a cav\u00e1-lo, at\u00e9 descobrir restos de animais pr\u00e9-hist\u00f3ricos. Este sonho despertou nele a vontade de saber mais sobre a natureza. No segundo sonho, ele estava num bosque, e havia riachos. Encontrou ent\u00e3o um lago cercado de densa vegeta\u00e7\u00e3o rasteira. No lago viu uma bela criatura, um enorme radiol\u00e1rio. Ap\u00f3s esses sonhos, optou pelas ci\u00eancias. Para resolver a quest\u00e3o de como ganhar a vida, decidiu estudar medicina. Ent\u00e3o teve outro sonho. Estava num lugar desconhecido, coberto de neblina, avan\u00e7ando vagarosamente contra o vento. Ele estava protegendo uma luz de apagar-se. Viu ent\u00e3o uma enorme criatura preta amedrontadoramente pr\u00f3xima. Acordou, e percebeu que a figura era a sombra que a luz projetava. Pensou que, no sonho, a n\u00famero 1 estava ela mesma levando a luz, e que a n\u00famero 2 seguia como uma sombra. Encarou isso como um sinal de que ele devia seguir com a n\u00famero 1, e n\u00e3o olhar para tr\u00e1s para o mundo da n\u00famero 2. (SHAMDASANI, 2009, p 195).<\/p>\n<p>Vemos aqui um exemplo valioso de como ele se relacionava com seus sonhos, levando-os a s\u00e9rio, relacionando-se com eles, como uma continua\u00e7\u00e3o da vida desperta, algo intr\u00ednseco e poderoso de se dialogar e se integrar. Nesse sonho ele compreendeu que caminho deveria tomar e fez sua decis\u00e3o, o que o levou \u00e0 trajet\u00f3ria que conhecemos.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica<\/p>\n<p>Shamdasani, Sonu. <strong>Introdu\u00e7\u00e3o para <em>O Livro Vermelho: Liber Novus.<\/em><\/strong> Trad. Gentil A. Titton e Gustavo Barcelos. Petr\u00f3polis: Vozes, 2009.<\/p>\n<p>Texto: Alessandra M. Esquillaro &#8211; CRP 06\/973472800<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando estudamos Jung e sua obra, fica claro como as coisas s\u00e3o interligadas, o pensamento gn\u00f3stico e paradoxal est\u00e1 sempre presente. 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